Por José de Alencar (1870)
— Está zangada comigo; está furiosa! Desde a noite do teatro que não me pode ver; e parece que preparou-se para o assalto, porque achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A mucama é uma Górgona, o porteiro um Cérbero; apenas consegui abrandar o moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio que a leoa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual à desta leoa de sala. Parece incrível; mas eu conheço de quanto é capaz a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pezinho mimoso, e querme trazer atado como um cativo ao seu carro de triunfo. Realmente uma moça bonita não pode ter maior satisfação: ver-me a mim, Horácio de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se humilde, não a seu olhar, a seu sorriso, à beleza de seu rosto, ou à graça de seu talhe, mas à planta de seus pés divinos! Fazer-me tapete de seus passos!... Que pode mais desejar a rainha dos salões fluminenses?
O moço mordeu a ponta do bigode negro e ficou alguns instantes muito pensativo.
— É preciso mudar o plano de ataque! Comecei à maneira de César, atacando com impetuosidade. Vou contemporizar conforme a escola de Fábio; simulo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e ele rende-se. Arraso o Humaitá daquele vestido que defende o meu pezinho adorado como uma casamata. A indiferença é a serpente tentadora da mulher.
Em conseqüência destas reflexões, Horácio deixou-se ficar onde estava, e não seguiu a moça. Quando supôs que ela já ia distante, foi procurar algures, em um bilhar, o preservativo contra a tentação de cortejá-la, ou antes o seu pezinho.
— Ela há de reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
Entretanto Laura, descendo a Rua do Ouvidor, encontrara pouco adiante, na casa do Masset, Amélia em companhia da mãe.
As duas amigas não podendo vir juntas, tinham ajustado seu encontro para aquele ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerário pelas diferentes lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas ou três horas, tomaram o carro que estava parado próximo à Rua dos Ouvires e partiram na direção do Catete. A poucos passos dali, Amélia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
— Trouxe?
— Sim, senhora; está aí dentro.
— Bem!
— O carro aproximava-se do Largo da Lapa, quando Amélia disse:
— Podíamos ir agora ao Passeio Público?
— Tão tarde! replicou Laura.
— Deixa-te disso! observou a mãe da moça.
— Por quê, mamãe? Há tanto tempo que lá não vamos.
— Não há nada de novo.
— Ora, eu queria ver a garça. Ainda não a vi.
— Viste, sim!
— Mas não reparei numa coisa!...
— Em quê?
— Uma coisa. Depois direi.
Tanto insistiu que a mãe cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Público. As senhoras desapareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direção ao lago. Amélia queria ver o andar da garça, que Horácio tinha comparado ao seu.
Nessa ocasião passava o tílburi do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropelo, produzido por uma gôndola mal conduzida, ia atirando o tílburi sobre o carro parado no portão do Passeio Público. Este incidente chamou a atenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movera.
A memória apresenta às vezes um fenômeno curioso; conserva por muito tempo oculta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciência. De repente, porém, uma circunstância qualquer evoca essa reminiscência apagada; e ela ressurge com vigor e fidelidade.
Foi o que sucedeu a Horácio. Minutos antes, por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria decerto. Entretanto bastou-lhe ver a roupa do cocheiro, para acudir-lhe imediatamente ao espírito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na Rua da Quitanda; não havia dúvida.
O leão mandou parar o tílburi e entrou no Passeio Público; depois de percorrer inutilmente várias alamedas, afinal descobriu entre as árvores, além do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquela direção.
O terreno estava úmido da chuva da manhã; e por isso o pé dos passeadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das alamedas. Notando esta circunstância, Horácio procurou o vestígio de alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma relíquia; ficou ébrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que deixara no chão o mimoso pezinho.
Se não fosse o anelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona incógnita do tesouro, Horácio se houvera ajoelhado a beijar o rasto da fada de seus amores; mas as senhoras caminhavam rapidamente para o portão.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.