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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Felisberto – Nada de cerimônias... verá como ele é elegante... talvez que lhe dê na cabeça comprar-mo... olhe... pode se quiser, ficar com ele, e com os cavalos, que são magníficos, por três contos de réis, é quase de graça...

Adriano – E esta?... pois o homem não quer me vender o caleche?!!!

Felisberto – Não percamos tempo... o seu chapéu. (Dá-lhe o chapéu) a sua bengala... pois não tem bengala?... é indispensável eu lhe cedo a minha... tenho outras em casa... esta custou-me sessenta mil réis; olhe, é de unicórnio, e tem rico castão de ouro; eu lhe cedo pelo custo...

Adriano – Então eu hei de dar sessenta mil réis por isto? Estou quase gritando ah! quem d’El-Rei!... esta gente quer pôr-me doido...

Felisberto – Oh! Sessenta mil réis... que vale isso?... o senhor não pode fazer caso de semelhante bagatela. (Canta)

Querido amigo, enfim,

É tempo de pôr casa,

Fazer não pode vasa

Vivendo sempre assim

Meu caro, eu já lhe acudo,

Porquanto tenho tudo

Que possa desejar;

Oh! Venha me comprar

Mobília nova e linda

De França há pouco vinda,

Cadeiras de lavores

Quatorze aparadores,

Divãs, sofás e mesas

De formas e belezas

Em tudo variadas:

As mesas regulares

Redondas, ou quadradas,

E até triangulares;

Por uma ninharia

Lhe cedo a livraria,

Que bem cara comprei!

Também lhe venderei

O meu melhor carrinho,

E até o fardamento

Pra um lindo joqueizinho,

E tudo a bom contento;

Sim, sim, venha comprar.

Que em tudo que lhe vendo,

Amigo, o que pretendo

É só gosto lhe dar.

Adriano – Ora, louvada seja a Providência! Pois que, enfim, conheço que quem está doido não sou eu, é ele!

Felisberto – Vamos, vamos depressa, amigo do coração.

Adriano – Adeus, Celestina, eu me deixo levar para ver isto em que dá.

CENA VII

Os mesmos, e Pantaleão que aparece apressado

Pantaleão (A ADRIANO) – Um instante!...

Adriano – O taberneiro monopolizador do toucinho! Agora sim, estou apertado...

(Querendo sair) Desculpe, senhor Pantaleão...

Pantaleão – Não o posso deixar assim... tenho um negócio mais importante, do que o próprio monopólio da carne fresca.

Felisberto – Conclua os seus negócios, meu amigo; não lhe quero ser incômodo; vou esperá-lo em minha casa....

Adriano (Querendo sair) – Nada... já agora eu também vou

Pantaleão (Retendo-o) – De modo nenhum... os momentos são preciosos...

Adriano (À parte) – Como me safarei eu das unhas deste gavião!...

Felisberto (À parte) – A sós conferenciando, Ambos vão aqui ficar;

Que tratada será esta?...Que irá disto resultar?...

Adriano – A sós conferenciando,

Nós vamos aqui ficar;

Que maldito taberneiro,

Que maçada me vai dar!

Pantaleão – A sós conferenciando,Nós vamos aqui ficar;Não me escapa o milionário,Eu o hei de conquistar Celestina – A sós conferenciando,Eles vão aqui ficar;Anda nisto algum mistério,Que eu não posso desnublar. CENA VIIIAdriano e Pantaleão

Pantaleão – Meu jovem e prezado amigo, agora que estamos sós, eu me posso desabafar...

Adriano (À parte) – Oh!... pis também o taberneiro?... Que diabo quer dizer isto?... estarei dormindo... ou... ou... querem ver que grassa na cidade alguma peste de loucura!...

Pantaleão – Mas, antes de tudo, consinta Vossa Senhoria...

Adriano (Estupefato) – Vossa Senhoria!!! Eles acabam hoje por dar-me excelência!...

Pantaleão – Consinta Vossa Senhoria que eu lhe abrace, e que faça correr por suas faces uma lágrima de dor, que Vossa Senhoria ajuntará àquelas que, sem dúvida, já tem derramado hoje!...

Adriano – Eu, senhor?... eu ainda não derramei hoje uma única lágrima!

Pantaleão (Chorando) – Isso depende dos temperamentos; cá eu choro como um bezerro!...

Adriano (À parte) – Há de ser conseqüência da profissão.

Pantaleão – Vossa Senhoria, sem dúvida, é duro para chorar...

Adriano – Mas, sou eu algum bobo para andar chorando à toa?... chorar por que, homem dos meus pecados?!

Pantaleão – Comigo é inútil o fingimento... eu sei tudo!...

Adriano – Está mais adiantado do que eu, que ainda não sei nada.

Pantaleão – Pois, vá que não saiba: mudemos de assunto, e tanto mais que vou propor-lhe um negócio importante. Senhor Adriano, estou decidido de pedra e cal a meter-me com unhas e dentes no monopólio do toucinho e da carne fresca; mas para isso é, como lhe dizia ontem, necessário dinheiro grosso.

(continua...)

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