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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Maurício — Não, este livro não mente; ele me assinala a ruína e a vergonha, porque me traz à memória dívidas que não posso pagar; ele me lança em rosto um crime, porque em um momento de desvario ousei vender escravos que tinha hipotecado. Estão aqui vestidos de seda que apareceram em uma só noite; brilhantes e enfeites, que importam em contos de réis. Devo às lojas de modas, devo aos joalheiros, devo aos tapeceiros, devo as mobílias e o aluguel das nossas casas; devo tudo e a todos! E o que é mais! Essa hipoteca, que não soube respeitar, me denuncia um crime de estelionato, e não há meio de escapar às suas conseqüências.

Hortênsia — E choras o que gastaste comigo e com tua filha?

Maurício — Não; mas quando penso que me arruinei para engolfar-me em prazeres que duraram instantes; quando penso que sacrifiquei o futuro de nossa filha a vãs pretensões que só a vaidade inspirava, maldigo mil vezes a loucura que me arrastou à perdição.

Hortênsia — E pretendes lançar-me em rosto essas despesas que somente agora lastimas?...querias que eu fosse a bailes e teatros e neles me apresentasse vestida pobre e miseravelmente, para ficar exposta ao escárnio das senhoras e ao desprezo dos homens?...

Maurício — Eu não me queixo de ti, Hortênsia; choro apenas a nossa desgraça e maldigo a minha imprudência.

Hortênsia — Fora talvez melhor que tivéssemos vivido ignorados; que uma vez por outra nos reuníssemos com uma ou duas famílias de classe baixa, e que enquanto jogasses a bisca com os maridos, eu conversasse sobre receitas de doces com as mulheres?... Não faríamos dívidas e teríamos a glória de casar Leonina com algum empregado de pouco mais ou menos, se escapássemos de casá-la com o filho de algum marceneiro.

Maurício — Hortênsia! Não assenta bem tanta soberba em quem está batendo às portas da miséria.

Hortênsia — Ora! O que nós estamos é chegando ao dia do triunfo. O comendador se mostra loucamente apaixonado por Leonina...

Maurício — Mas o infame procedimento que teve ontem...

Hortênsia — Não pensou no que fez e deu-me a satisfação mais completa. Leonina há de tornar-se às boas com ele e eu te asseguro que o comendador nos pedirá nossa filha em casamento no dia dos anos desta.

Maurício — Oh! se isso não fosse uma nova ilusão!

Hortênsia — Não o duvides. O próprio comendador mo deu a entender; o que, portanto, nos cumpre é disfarçar a crise que nos ameaça e salvar as aparências por alguns dias.

Maurício — Entendo; devemos representar o último ato da comédia da impostura.


CENA II

Maurício, Hortênsia e Anastácio, que fica junto à mesa.

Anastácio — Juntinhos a conversar! Os meus dois fidalgos estão de certo desenrolando a sua genealogia: quero apreciá-los de parte. (Vê o livro e abre-o) Oh! o livro de receita e de despesa! Isto é uma obra rara e proibida na casa do desmazelo e da dissipação. (Examina).

Hortênsia — Tratemos da nossa festa: convêm que seja de estrondo, e que se fale durante um mês inteiro do baile de máscaras dado em honra dos anos de Leonina.

Maurício — E se esse casamento não se concluir, onde iremos parar, Hortênsia?...

Anastácio (Batendo com o livro sobre a mesa) — Miserável!...

Hortênsia (Voltando-se) — Meu mano!...

Maurício (Correndo para o livro) — Oh! leu...sabe tudo!...(Pena no livro).

Anastácio (À parte) — Desgraçado!...desgraçado!...(Outro tom e à parte) Mas antes assim, meu Deus; eu temia que ele fosse já um infame, e apenas tem sido um louco; antes assim!

Hortênsia — Que tem, meu mano?...

Maurício — Anastácio, eu compreendo o teu desespero; foi este livro...

Anastácio — E que tenho eu com esse livro?...pela encadernação parece-me obra moderna, e eu só acredito nos autores do século passado.

Maurício (Á parte) — Não leu, ainda bem! (Vai guardar o livro num gabinete e volta logo).

Anastácio (À parte) — Coisa singular!...quer me parecer que este meu irmão ainda tem vergonha!

Hortênsia — Mas por que motivo entrou tão irritado?...

Anastácio — Porque...porque...ah! querem saber por quê?...pois eu lhe conto. Fui visitar uma família de minha íntima amizade, e a quem como a vocês, não via há dezoito anos, e quando esperava encontrar a prosperidade, encontrei somente a desgraça e a miséria.

Hortênsia — Infelizes!...

Anastácio — Infelizes, não; infeliz é o lavrador que trabalha meses inteiros e vê num dia o vento impetuoso ou a enchente assoladora destruir-lhe as plantações; infeliz é o negociante a quem a tempestade roubou a riqueza, fazendo soçobrar seus navios; infeliz é o proprietário a quem o incêndio devorou as casas e a fortuna; mas o perdulário, e o dissipador, vítimas somente do luxo e da vaidade, não têm direito à compaixão dos homens; são entes imorais, que pervertem a sociedade com o seu mau exemplo, e que merecem o castigo da desgraça.

Maurício — Anastácio...levas a austeridade até o excesso...

(continua...)

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