Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
PINA – Está preso: recolha-se ao xadrez (Pestana aterrado recolhe-se; Paula sai com a escolta) Sr. Peres, vou proceder a indagações...
PERES – E eu esperarei aqui até a noite pelo cumprimento do seu dever..
FR. SIMÃO – E por fim de contas o noviço?...
PINA – Que teima!... por fim de contas faça de conta que o noviço desnoviciou-se.
VOZES (Em coro dentro)
— Á el-rei!... á el-rei!.
A queixa do povo
Contra vice-rei
Não é caso novo!...
PINA – Ainda mais isto!... motim do povo!... (Aos soldados em forma) Firme!...
sentido!... (Dá um sinal ou ordem; os tambores e cornetas dão sinal de reunião extraordinária, que se mistura com o coro repetido A el-rei, á el-rei).
FIM DO ATO TERCEIRO
ATO QUARTO
Sala na casa de Mendes: À esquerda, três janelas com engradamento de madeira e nele postigos à altura dos parapeitos e outros rentes com o assoalho; porta de entrada, ao fundo; portas à direita, mobília do tempo.
Cena primeira
Mendes e Inês com vestido de seu sexo e logo Benjamim.
MENDES – Estou reduzido a ama-seca!
INÊS – Sou-lhe pesada, meu padrinho, bem o vejo.
MENDES – Tu não pesas nada, a começar pela cabeça, que é de vento; mas quebraste-me as pernas: não posso sair, deixando-te só...
INÊS – Mas meu padrinho podia ao menos escrever a alguns amigos seus...
MENDES – Escrever o que?...
INÊS – Bem sabe... a favor... dele... (Vergonhosa)
MENDES (À parte) – Não faz mais cerimônias!... e eu que ralhe!... ora... seria ralhar com a natureza!...
INÊS – Que diz, meu padrinho?... escreve? ...
MENDES – Preciso antes de tudo livrar-te da fúria do compadre...
INÊS – Sim... por certo: entretanto... Benjamim deve estar em torturas naquele quartel...
MENDES – Hei de ocupar-me dele... mas ainda não jantaste...
INÊS – Não tenho fome... pobre Benjamim!
MENDES – Benjamim!... Benjamim! come alguma coisa, menina...
INÊS – Não posso... é impossível, meu padrinho (Sussurro, movimento na rua).
MENDES – Que será isto?... (A um postigo algo).
INÊS – Também quero ver... (Indo).
MENDES – Sim... mostra-te ao postigo... teu pai...
INÊS(Recuando) – Ah! tem razão.
VOZES (Dentro) – Viva o vice-rei! viva o Conde da Cunha!...
MENDES – Que berraria! homens e mulheres a valer!
CORO (Que vai passando )
— Já temos amparo,
Providência e lei...
Viva o pai do povo!...
Viva o vice-rei!...
VOZES – Viva o Conde da Cunha!... viva!...
INÊS – Maldito seja esse vice-rei!... (O povo segue cantando.)
MENDES – Eis aí o que é o povo! hoje de manhã bradava contra... depois do meiodia canta a favor!...
INÊS – E o infeliz Benjamim nas garras do vice-rei!...
Cena II
Mendes, Inês, e Benjamim ainda fardado.
BENJAMIM (Precipitado) – Quem foge, não pede licença...
INÊS – Oh!...
BENJAMIM – Oh!
MENDES – Homem, você tem faro de cachorro!... mas que imprudência... esta porta aberta?... (Vai trancá-la).
INÊS (Alegre) – Como pode escapar, Sr. Benjamim?...
BENJAMIM – Descobri num quarto um oficial velho a dormir... furtei-lhe o fardamento, que despira, e também a cabeleira e o chapéu... e saí do quartel a marchemarche...
MENDES – E descobriu também logo a minha casa pela regra de que o diabo ajuda os seus!...
BENJAMIM – Oh! o diabo, não! desta vez quem me ajudou foi... mesmo o Sr.
Mendes...
MENDES – Eu?... como é que eu fui o diabo?...
BENJAMIM (Canta.) – Andava em corrida
Por onde não sei,
Sem pedir guarida,
Sem saber de mim;
Mas longe avistei
Pior que um malsim,
Uma grande escolta
Lá do regimento;
Faço meia volta,
Logo em seguimento
Entro em cadeirinha’
Caminha!... caminha!...
Vou sempre dizendo
Talvez meia hora...
Escuto fervendo
O povo a gritar..
Exponho-me a olhar...
Que belo!... é agora
Patuleia grossa,
Viva o vice-rei!
Cadeirinha fora.
Meto-me na troça
Viva o vice-rei!
E na troça a andar
Aqui ao passar
Descubro ao postigo
Daquela janela
Cabeça de amigo;
É o Mendes! digo,
Escapo à seqüela
E zás... corredor;
A escada subi...
E enfim eis-me aqui
Entregue ao senhor.
INÊS – Meu padrinho foi a providência!...
MENDES (À parte) – Logo vi que ela descobria a providência nesta nova embrechada! (Alto) E agora?...
BENJAMIM – É nítido: ou me asila, ou me despede; se me
despede, torno para o quartel, para os franciscanos não volto.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.