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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Aos argumentos dos gentios prometeu a razão que responderia com as suas fábulas; e por que não pareça pouco sólido este novo modo de responder; ouçamos primeiro a Tertuliano. Argumentando contra a gentilidade, Tertuliano, no seu Apologético, disse que as fábulas dos gentios faziam mais criveis os mistérios dos cristãos. Parece proposição dificultosa, porque as fábulas dos gentios são mentiras, são fingimentos; os mistérios dos cristãos são verdades infalíveis: como logo pode ser que a mentira acrescente crédito à verdade? O mesmo Tertuliano se explicou como juízo que costuma: Fideliora sunt nostra, magisque credenda, quorum imagines quoque fidem invenerunt As fábulas dos gentios, se bem se consideram, são uns arremedos, são umas semelhanças, são umas imagens ou imaginações dos mistérios dos cristãos. E se os gentios deram fé ao arremedado somente dos nossos mistérios, por que a não hão de dar ao verdadeiro deles? Se creram e adoraram os retratos, por que hão de duvidar a crença e negar a adoração aos originais? Fideliora, magisque credenda, quarum imagines quoque fidem invenerunt Com a sua mesma idolatria está convencendo a razão aos gentios para que não possam negar a fé, porque nenhuma coisa lhes propõe tão dificultosa de crer a fé, que eles a não tenham já concedido e confessado nas suas fábulas. Daqui se entenderá a razão e providência altíssima que Deus teve, para permitir a idolatria no mundo. E qual foi? Para que a mesma idolatria abrisse o caminho à fé e facilitasse no entendimento dos homens a crença de tão altos e tão secretos mistérios, como os que Deus tinha guardado para a lei da graça. Assim como Deus neste mundo criou um homem para pai de todos os homens, que foi Adão, assim fez outro homem para pai de todos os crentes, que foi Abraão. A um deu o primado da natureza, a outro a primazia da fé. Mas esse mesmo Abraão, se bem lhe examinarmos a vida, acharemos que antes de crer no verdadeiro Deus, foi idólatra: Thare pater Abrahae, et Nachor, servierunt que diis alienis10. Pois idólatra Abraão, que há de ser pai de todos os crentes? Sim, e por isso mesmo. Permitiu Deus que o pai da fé fosse filho da idolatria, porque a idolatria é degrau e sucessão para a fé. A porta da fé é a credulidade, como dizem os teólogos, porque antes de uma coisa ser crida, há de julgar o entendimento que é críveI. E isto é o que fez a idolatria no mundo, vindo diante da fé. A idolatria semeou a credibilidade, e a fé colheu a crença; a idolatria, com as fábulas, começou a fazer os gentios crédulos, e a fé, com os mistérios acabou de os fazer crentes. Como a fé é crença de coisas verdadeiras e dificultosas, a idolatria facilitou o dificultoso, e logo a fé introduziu o verdadeiro. As repugnâncias que tem a fé, e o grande, o árduo, o escuro, e o sobrenatural dos mistérios: crer o que não vejo, e confessar o que não entendo. E estas repuguâncias já a idolatria as tinha vencido nas fábulas, quando a fé as convenceu nos mistérios.

Suposta esta verdade, ficam mui fáceis de crer aos gentios quaisquer dificuldades que se lhes representem no Sacramento do Altar, porque tudo o que nós cremos neste mistério, creram eles primeiro nas suas fábulas. Se os gentios criam que no pão comiam um deus e no vinho bebiam outro, no pão a Ceres e no vinho a Baco, que dificuldade lhes fica para crerem que debaixo das espécies do pão comemos a carne, e debaixo das espécies do vinho bebemos o sangue do nosso Deus? Se comêssemos a carne e sangue em própria espécie, seria horror da natureza, mas debaixo de espécies alheias, tão naturais como as de pão e vinho, nenhum horror faz nem pode fazer, ainda a quem tenha a vista tão mimosa e o gosto tão achacado como Averróis.



(continua...)

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