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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- E verdade, a Titi tem-me amizade... Mas acredite Vossa Excelência, Doutor Margaride, que o meu futuro inquieta-me às vezes... Olhe que tenho pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se seria difícil entrar como despachante na alfândega. Porque enfim a Titi é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, único parente, único herdeiro; mas...

E olhei ansiosamente para o Doutor Margaride, que, pelo loquaz Padre Casimiro, conhecia talvez o testamento da Titi... O silêncio grave em que ele ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro; e nesse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e felicitando o magistrado por o ver melhor do seu catarro.

- Deliciosa torrada! - murmurou o doutor.

- Excelente torrada! - suspirei eu cortesmente.

De vez em quando o Doutor Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com religião.

Eu arrisquei outra palavra tímida.

- A Titi, é verdade, tem-me amizade...

- A Titi tem-lhe amizade - atalhou com a boca cheia o magistrado - e você é o seu único parente... Mas a questão é outra, Teodorico. E que você tem um rival.

- Rebento-o! - gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa.

O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Doutor Margaride reprovou com severidade a minha violência.

- Essa expressão é imprópria de um cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!

Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a Titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção.

- Estou perdido! - murmurei.

Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste diante do seu capilé. E pareceu-me que ele se assemelhava a mim como um irmão, que era eu próprio, Teodorico, já deserdado, sórdido, com as botas cambadas, vindo ali ruminar as dores da minha vida, à noite, diante de um capilé.

Mas o Doutor Margaride acabara a torrada. E estendendo regaladamente as pernas, consoloume, de palito na boca, afável e perspicaz.

- Nem tudo está perdido, Teodorico. Não me parece que esteja tudo perdido... E possível que a senhora sua tia tenha mudado de idéia... Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ela... Tudo isto influi. Que é necessário dizê-lo, o rival é forte!

Eu gemi:

- E de arromba!

- E forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito... Jesus Cristo padeceu por nós, é religião do Estado, não há senão curvar a cabeça... Olhe, quer você a minha opinião? Pois aí a tem, franca e sem rebuço, para lhe servir de guia... Você vem a herdar tudo, se D. Patrocínio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixá-la à Santa Madre

Igreja...

O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, ia abafado no seu paletó, ainda me disse baixinho:

- Com franqueza, que tal a torrada?

- Não há melhor torrada em Lisboa, Doutor Margaride.

Ele apertou-me a mão com afeto, e separamo-nos, quando estava dando a meia-noite no velho relógio do Carmo.

Estugando o passo pela Rua Nova-da-Palma, eu sentia agora bem claramente, bem

amargamente, o erro da minha vida... Sim, o erro! Porque até aí, essa minha devoção complicada, com que eu procurara agradar à Titi e ao seu ouro, fora sempre regular, mas nunca fora fervente. Que importava murmurar com correção o terço diante de Nossa Senhora do Rosário? Diante de Nossa Senhora em todas as suas encarnações, e bem em evidência para comover a Titi, eu devia mostrar habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilícios... Até ai a Titi podia dizer com aprovação: "É exemplar". Era-me preciso, para herdar, que ela exclamasse um dia, babada, de mãos postas: "E santo!"

Sim! Eu devia identificar-me tanto com as cousas eclesiásticas e submergir-me nelas de tal sorte, que a Titi, pouco a pouco, não pudesse distinguir-me claramente desse conjunto rançoso de cruzes, imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ela a religião e o céu; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já salpicada de estrelas, e diáfana como a túnica de bem-aventurança. Então, evidentemente, ela testaria em meu favor - certa que testava em favor de Cristo e da sua doce Madre Igreja!

(continua...)

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