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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Quando Alípio, concluída a formatura, deixou Coimbra, Júlia estava no terceiro mês da sua gravidez. No entanto conservou-lhe sempre uma estima terna, até que um companheiro, daí a tempos, lhe escreveu, dizendo que Júlia fora expulsa da respeitável casa das Barrosos (como de resto era justo) e que, achando-se sem emprego, formosa e com um filho a sustentar, se lançara na prostituição.

Desde então o nosso grande Alípio só concebeu por ela desprezo e repulsão – porque naquele espírito nobre sempre houvera o horror das miseráveis, que, esquecendo o que devem ao respeito próprio à sociedade, à família, ao filho, vão pedir ao indolente abandono do lupanar o pão que deveriam obter das severas fadigas do trabalho. Recusou mesmo, com indignação, a esmola que ela lhe mandara pedir, temendo que os pouco mil-réis que lhe poderia remeter, fossem porventura, contribuir para enfeitar e arrebicar uma nova sacerdotisa da Vénus das vielas. Tanto a esta alma severa e forte repugnavam as moles condescendências e as vãs piedades!

Dois anos depois da sua formatura, encontrámos Alípio Abranhos em Lisboa, numa casa da Rua do Ouro que faz esquina para o Rossio, e praticando no escritório do famoso Dr. Vaz Correia.

O Conde nunca me deu pormenores minuciosos sobre estes primeiros anos de Lisboa, nem encontro nas suas notas elementos pelos quais possa fazer deles uma narração detalhada. O País tinha então atravessado a grande crise social que e popularmente conhecida pelo nome da Maria da Fonte. Não me proponho, neste estudo puramente íntimo, fazer crítica histórica ou apreciar as consequências desta formidável convulsão da nossa política portuguesa.

Uma vantagem, porém, – e insisto nela porque se prende indirectamente com a carreira política do Conde d'Abranhos – tirámos da Junta: e foi essa vantagem o ficar provada a impossibilidade em Portugal de um desses ministérios à Polignac e à Cabral, que vão, com uma obstinação altiva e brutal, contra as tendências do espírito público e pretendem impor-se pela força em lugar de conquistar pela habilidade. O povo é como um desses monstruosos elefantes da Índia de que tenho ouvido contar: de uma pujança indomável e de uma simplicidade risível, o mundo inteiro, pela violência, não o pode obrigar a caminhar contra a sua vontade, e uma criança, pela astúcia, obriga-o a fazer cabriolas grotescas. O povo tem a força de um elemento e um regimento não lhe pode impor uma ideia que um simples advogado hábil em declamação lhe faz aceitar sem esforço. Isto eram verdades já velhas no antigo mundo helénico. Os Polignacs, os Guizots, os Cabrais, são portanto culpados, não de falta de civilização, mas de falta de astúcia. Para que se há-de combater um monstro invencível, quando é tão simples iludi-lo?

Os Romances de Cavalaria dão-nos uma alta lição política, quando nos pintam esses medonhos gigantes que guardavam as entradas das pontes, sobre torrentes tenebrosas: as lanças dos melhores cavaleiros, tentando forçar a passagem, quebravam-se de encontro à pele coriácea dos temerosos brutos, até ao dia em que um bravo Percival ou um Lancelote, flor de cavalaria, lhe mandavam um anão pérfido e hábil em manhas, que adormecia profundamente o colosso – e os cavaleiros podiam, impunemente, trepar-lhe sobre o ventre monstruoso, como sobre uma montanha inerte, e entrar no castelo desejado onde os esperava um seio branco e os vinhos raros que vêm das colinas de Inspruk.

Polignac, Guizot, Cabral, quebraram as lanças de encontro ao gigante; ainda hoje.21 viveriam, e decerto estariam no castelo, coroados de rosas, nos braços da Princesa, se, em lugar do heróico e vão esforço, tivessem mandado adiante o anão, profundo em manhas.

Os políticos da geração moderna compreenderam e aceitaram a grave lição da Maria da Fonte. O sistema da violência foi abandonado como inútil, e começou, com êxito, o dúctil método da habilidade.

O Conde d'Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!

(continua...)

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