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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Isto eram apenas conjecturas, deduções da fantasia, que nem constituem uma verdadecientífica, nem uma prova judicial. Esta mulher, que eu reconstruía assim pelo exame de um ca belo, e que me aparecia doce, simples, distinta, finamente educa da, como poderia ter sido o protagonista cheio deastúcia daquela oculta tragédia? Mas conhecemos nós, porventura, a secreta lógica das paixões?Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cúmplice. Aquele homem não se tinha suicidado. Não estava decerto sé, no momento em que bebera o ópio. O narcótico tinha-lhe sido dado, sem violência evidentemente, por ardil ou en gano,num copo de água. A ausência do lenço, o desaparecimento da gravata, a colocação do fato, aquele cabelo louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça,tudo indicava a presença de alguém naquela casa durante a noite da ca tástrofe. Por consequência: impossibilidade de suicídio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabelo, a disposição da casa (evidentemente destinada a entrevistas íntimas), aquele luxo da sala, aquela esca da velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte dela naquela aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era oassassino, o cúmplice, o ocultador do cadáver? Não sei. M. C. não podia ser estranho a essa mulher. Não era decerto um cúmplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar ópio num copo de água não é necessário chamar um assassino assalariado. Tinham porconsequência um interesse comum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E acudiame à memória aquela inesperada referência a 2300 libras que de repente me tinha aparecidocomo um novo mistério. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei-de repetir eu todas as ideias que se formavam e que se desmanchavam no meu cérebro, como nuvens num véu varrido pelo vento?Há decerto na minha hipótese ambiguidades, contradições e fraquezas, há nos indícios que colhi lacunas e incoerências: muitas coisas significativas me escaparam por certo, aopasso que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memória, mas eu estava num estado mórbido de perturbação, inteiramente desor ganizado por aquela aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mistérios, se instalara na minha vida.O senhor redactor, que julga de ânimo frio, os leitores, que sos segadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor com binar, estabelecer deduções mais certas, e melhoraproximarse pela indução e pela lógica da verdade oculta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapéu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.- Vamos — disse ele.

Tomei calado o meu chapéu. — Uma palavra antes — disse ele. -Em primeiro lugar dê-me a sua palavra de honra queao subir agora à carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.- Bem! — continuou. -Agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu carácter, a sua delicadeza. Ser-me-ia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdém, ou necessidades de vingança. Por isso afirmo-lhe: sou perfei tamente estranho a estesucesso. Mais tarde talvez entregue este caso à polícia. Por ora sou eu polícia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um cárcere. Vejo que o doutor leva daqui a desconfiançade que uma mulher se envolveu neste crime: não o suponha, não podia ser. No entanto, se alguma vez lá fora falar, a respeito deste caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remor so, sem repugnância,naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os es tores fechados. Não pude ver quem guiava os cavalos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascaradosentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pele era fina, pálida, o cabelo castanho, levemente anelado.A carruagem seguiu um caminho, que pelos acidentes da estra da, pela diferença de velocidade indicando aclives e declives, pelas alternativas de macadame e de calçada, me parecia o mesmo que tínhamos seguido na véspera, no começo da aventura. Rodámosfinalmente na estrada larga.

— Ah, doutor! — dizia o mascarado com desenfado. — Sabe o que me aflige? É que ovou deixar na estrada, só a pé! Não se pô de remediar isto. Mas não se assuste. O Cacém fica a dois passos, e aí encontra facilmente condução para Lisboa.

E ofereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou. — Chegámos — disse o mascarado. — Adeus, doutor. E abriu por dentro a portinhola.- Obrigado! — acrescentou. — Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permita



(continua...)

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