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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

O escritório dormia no grande silêncio do dia feriado. – e quando ele empurrou o batente de baetão verde o relógio dava onze horas, com o seu tom que soava cavo e triste, sob aqueles tetos baixos. Correu ao seu gabinete, e pareceu-lhe que não tinha entrado ali havia séculos, e que havia alguma coisa de diferente nos móveis e na ordem das coisas. No seu vaso o ramo acabava de secar.

E então, bruscamente, uma reação fez-se no seu ser, Diante daqueles móveis, daquelas duas carteiras de sócios, postas uma junto da outra, lembrandolhe uma intimidade, uma confiança de anos, veio-lhe uma cólera furiosa contra o Machado. As coisas mesmas o acompanhavam nesta cólera. Sim, o Machado era um infame que merecia a morte. E cada cadeira, as paredes mesmas, como embebidas da honra comercial que ali habitava, eram uma acusação muda contra a traição do Machado.

De repente um passo leve soou fora: era o Machado.

Godofredo, instintivamente, refugiara-se pôr trás da sua carteira, remexendo ao acaso papéis, com a mão trêmula, sem ousar erguer os olhos.

O batente abriu-se, era o Machado, pálido como um morto, com o chapéu e a bengala numa das mãos, a outra no bolso das calças, fazendo uma saliência.

Mas Godofredo não via isto, não ousava fixá-lo: os seus olhares erravam aqui e além, procurando uma palavra, uma coisa profunda e digna a dizer. Pôr fim, com um esforço, encarou-o: e aquela mão no bolso feriu-o logo, teve um gesto, receando uma arma, um ataque. O Machado compreendeu, lentamente retirou a mão do bolso, foi colocar o chapéu, a bengala, sobre a sua carteira. Então godofredo, trêmulo, com a pressa, a ansiedade de dizer alguma coisa, balbuciou isto:

— Depois do que se passou ontem, não podemos continuar a ser amigos.

Machado, que tinha a face contraída, com uma expressão de ansiedade, cerrou os olhos, respirou livremente. Esperava uma violência, alguma coisa terrível, e aquela moderação, aquele gemido triste, duma amizade traída, espantou-o, quase o impressionou... Nesse momento desejava poder lançar-se nos braços do seu sócio. E respondeu, com uma emoção sincera, um soluço na garganta:

— Infelizmente, infelizmente...

Então Godofredo fez-lhe sinal que se sentasse. Machado, com a cabeça baixa, foi pousar-se à borda do sofá de reps. Godofredo deixou-se cair, como uma massa inerte, sobre o mocho, junto à carteira. E durante um momento um silêncio profundo reinou, tornado maior ainda pôr aquela rua de negócio adormecida ao Domingo, sob a calma. Godofredo passava a mão trêmula pela face, pelo rosto, procurando uma palavra.

O outro esperava, olhando a esteira.

— Um duelo entre nós é impossível – disse enfim Godofredo com esforço.

O outro balbuciou:

— Estou às suas ordens, disponha...

É impossível! — o Godofredo. – Riam-se de nós... Sobretudo esses duelos que para aí há... Era cair no ridículo... Não podemos, na nossa posição. Toda a praça se ria dum duelo entre dois sócios...

E um momento ficou trabalhando pôr esta idéia de serem sócios. Então todo aquele passado que os ligava pareceu erguer-se diante de Godofredo; e nunca sentira tanto a infâmia do Machado como vendo-o ali, naquele gabinete, onde três anos tinham trabalhado juntos. E disse-lho.

— A sua infâmia não tem nome...

Tinha-se erguido, a sua voz fortalecia-se, e o seu sentimento de amigo traído dava-lhe ao tom agora uma dignidade, uma solenidade que esmagava o outro. Então falou baixo, atirando-lhe as palavras, como punhaladas. Conhecera-o de pequeno; fora ele que o protegera no seu começo da vida; tinha-o feito seu sócio, seu amigo, quase seu irmão. Abria-lhe as portas de sua casa, recebia-o lá, como um irmão.

— E pelas minhas costas, o senhor que faz, desonra-me!

O outro erguer-se, com a face angustiosa, querendo acabar aquela tortura.

— Sei tudo isso – balbuciou, estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam.

Então Godofredo, exaltado, atirou a sua idéia:

— A reparação é só esta! Um de nós tem de morrer... Um duelo é absurdo.... Tiramos à sorte qual de nós se há-de-matar.

Aquelas palavras patéticas, apenas as soltara, tinham-lhe aparecido como sons estranhos e desconexos: os mesmos móveis as pareciam repelir... mas soltaraas, essas palavras; sentia um alívio, tendo enfim desembaraçado a alma daquilo que desde a véspera lha enchia de perturbação e de tormento.

Machado ficara a olhar para ele com os olhos esgazeados.

— Tirar à sorte! Como tirar à sorte?

Parecia não compreender. Aquele suicídio, tirado à sorte, parecia alguma coisa de grotesco e de doido.

Como Godofredo continuasse de pé, junto da carteira, sem dizer nada, mexendo no bigode, impacientou-se, exclamou:

— Isso é sério? Isso é dito a sério?

Foi então Godofredo que o olhou interdito. O que ele receara realizava-se. Machado achava aquilo absurdo, recusava. Então a sua cólera cresceu, como se visse fugir-lhe a vingança.

— Já ontem o senhor fugiu, quando o apanhei, fugiu covardemente. Agora quer fugir disto também.

O outro gritou, lívido:

— Fugir a quê?

(continua...)

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