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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dois

vales muito tristes, ao entardecer.

Acabamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, num murmúrio, anunciou Madame de Oriol, Jacinto pousou com tranqüilidade o charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroçado de café. Entre os reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, dum negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade docemente chalrada:

-É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, não me contive, quis ver os estragos... Uma inundação em Paris, nos Campos Elísios! Não há senão este Jacinto. E vem no Fígaro! O que eu estava assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver como no Vesúvio... Mas é duma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo pôr admirar as ruínas!

Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:

-Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena não Ter ao menos caído uma parede!

Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços duma inundação. O Fígaro contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos Elísios!

Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chapéu até à ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boliço do pássaro a chalrar. Só o sorriso, pôr trás do véu espesso, conservava um brilho imóvel. E já no ar se espalhara um aroma, uma doçura, emanada de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

Jacinto no entanto cedera, alegremente; e pelo corredor Madame de Oriol ainda louvava o Fígaro amável, e confessava quanto tremera... Eu voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Príncipe da Grã-Ventura pôr aquela perfeita flor de Civilização que lhe perfumava a vida. Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri vivamente à antecâmara, verificar diante do espelho o meu penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi à sala de jantar, e junto da janela, folheando languidamente a Revista do Século XIX. Tomei uma atitude de elegância e de alta cultura Quase imediatamente eles reapareceram; e Madame de Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava espoliada, nada encontrara que recordasse as águas furiosas, roçou pela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.

Ela recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem forte – mas cada prega do vestido, ou curva da capa, caía e ondulava harmoniosamente como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véu cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do cabelo louro, dum louro quente, torcido fortemente sobre as peles negras que lhe orlavam o pescoço , toda ela derramava uma sensação de macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de Civilização: - e pensava no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno onde ela tão delicadamente brotara, já desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa pôr ser flor de esforço e de estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de antemurcho.

No entanto, com a sua volubilidade de pássaro, chalrando para mim, chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto pôr aquele montão de telegramas sobre a toalha.

-Tudo esta manhã, pôr causa da inundação!... Ah, Jacinto é hoje o homem, o único homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas?

Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe empurrou para a sua amiga o telegrama do Grão-Duque. Então Madame de Oriol teve um ah! muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S.A . que os seus dedos acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre séria:

-É brilhante!

Ó! certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho, num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar, porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermão!

Jacinto exclamou com inocência:

-Sermão?... É já a estação dos sermões?

(continua...)

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