Por Coelho Neto (1924)
Toda a riqueza que se perdeu, por mais que a busquemos ajuntar, foge-nos em bagas de pranto, pérolas que nos caíram no coração, com as quais, se não refazemos o colar de outrora, formamos o rosário em que rezamos por ele a oração da saudade.
VIVER
Viver! Eu sei que a alma chora E a vida é só dor ingrata. Pranto, que a não alivia,
Olhos, que o estão a verter... Sofra o coração, em hora!
Sofra! Mas viva! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!
Raimundo Correia
Rugem os ventos, estalam raios, o navio, desarvorado, guina, embica, empina-se, trambolha; entra-lhe o mar a golfos pelas bordas, afreima-se a maruja e, na profundeza, a máquina trabalha.
Não cessa e, quanto mais se enfuria a tormenta, mais se esforçam, os que asseguram o movimento, em manter a fornalha acesa, a caldeira em força, as juntas bem lubrificadas para que nada impeça a propulsão.
Em cima, é a grita espavorida; são preces, ordens, correrias; um que acode ao leme; outro que marinha lesto enxárcia acima. Este, calafeta abertas; aquele, entaipa escotilhas.
E já se desligam os cabos que suspendem aos turcos os barcos de salvamento, cuida-se a palamenta, trazem-se salva-vidas e tudo e apresta para a possibilidade iminente do naufrágio.
E a máquina retroa no bojo do navio.
Aos embates da madria toda a construção abala-se. A hélice, umas vezes aprofunda-se, outras vezes, no levantar da popa, gira rápida no vácuo e toda a nave estremece, range convulsamente sacudida.
Remergulha. Faz-se tão rasa com o oceano crespo que parece ir em soçobro. Surge a ímpeto, arfando; eleva-se mostrando a quilha, torna de chapa ao abismo, bate estrondosamente e, com o choque, demora um instante a pique no côncavo das vagas. Um vagalhão sustem-na, põe-na a flux.
Ei-la a escorrer dos flancos cachoeira mar espumarento, ginga às tontas, cambaleia ringindo e o terror cresce entre os homens e os escarcéus cada vez mais se enfurecem, tudo é desespero.
E a máquina trabalha.
Assim também procede o coração na angústia.
Sofra o coração, embora!
Sofra! Mas viva ! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!
A alegria de viver! Isso não torna ao coração. As máquinas de aço e bronze, se conseguem vencer os temporais, quando os navios chegam ao porto são examinadas peça por peça e, nem por serem de metais fortíssimos, deixam de trazer mossa.
Entram, porém, os artífices com o trabalho e, onde encontram falhas, reparam; onde descobrem eiva, corrigem; se um êmbolo ou mancal sofreu dano, logo o substituem e a máquina, refeita, torna ao seu oficio, íntegra como dantes e nela nem sal das ondas se conserva porque tudo é limpado, lixado e ajustado.
O coração, esse... quando chega ao porto de bonança, serenando, é que mais sofre.
Amaina-se o temporal, limpam-se os ares, abre-se o céu em luz, abranda-se em brisa o vendaval, tudo torna à calma do bom tempo, o coração quebrado, esse... quem o conserta?
Que artífice é capaz de substituir nele as peças que a tormenta inutilizou?
Move-se, vive e bate... mas como vive. Ai! dele... Bate. De que lhe serve bater?
Ao sair do estaleiro o navio corre ao mar e a hélice contra as águas e revolve-as e, cada volta em que gira, leva-a para diante.
O coração, inclinado sobre o abismo, bate em vão, porque toda a sua força perde-se no vácuo, como a da hélice, quando o navio mergulha no côncavo das vagas.
O navio prossegue, singra mar em fora, vai a novos rumos, a novas praias. O coração, de que lhe serve bater se não sai do vazio da saudade?
Mas é preciso viver... Pois seja! Que o coração faça o seu ofício:
Sofra! Mas viva! Mas bata Cheio, ao menos, da alegria De viver, de viver!
O QUE RESTA
Leva a tempestade o ninho e a ave, órfã e desabrigada, esvoaça tonta e aflita. Vai de árvore a árvore, salta de ramo em ramo ansiosa; eleva-se no ar, libra-se em pairo, torna ao chão, olha, pesquisa e, do que foi, nem a mais tênue achega encontra.
Dolorida, ainda que tudo se lhe balde, revoa em volta da árvore em que teve o pouso e a prole, até que, de todo desanimada, abala, fugindo ao sítio da desventura.
Longe, porém, em verdes silvas, cantando aqui, ali palhiço e folhas, tece outro ninho, reinstalase em tépido aconchego e dorme até que rompe a madrugada, e ei-la desperta, pronta para voar de novo, cantar ao sol, feliz.
Teu nome!
Anda de boca em boca como, de ramo em ramo, voa e revoa a ave desditosa. Ouço, a todo o instante, o doce nome ao qual dantes respondias. Mas o ninho em que ele vivia foi-se levado pela tempestade, caiu da árvore do amor, desfez-se em pó no chão.
Debalde soas, pobre nome! Não és mais que som. Andas nas falas, voas nos suspiros, sinto-te nas lágrimas.
Isso, porém, que monta se não assentas, porque o corpo, que era o teu pousadouro, desapareceu para sempre.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.