Por Coelho Neto (1897)
- Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se também procurassem o misterioso interlocutor. Mas o menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou. Presto, Maria tomou-o ao colo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. - Deve ser frio, disse José. - Fome, talvez, disse Maria, ansiosa por dar o peito farto ao pequenino filho.
O PRIMEIRO LEITE
À primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dor aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martírio, com a alma a brilhar nos olhos que a dor orvalhara de lágrimas.
Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava paragens como a torrente que se despenha de altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha à levada.
O Divino alimentava-se do sofrimento humano e naquelas opalinas góticas de leite – sangue e água fundidos em candura – o céu comungava na terra.
A carne mortal nutria o espírito perene, o efêmero transfundia-se no eterno: as duas colinas alvas tocavam o infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudais, as leis santas, os sábios julgamentos, a benção e o perdão.
A Virgem sorria e o seu colo túrgido ondulava de ventura, enquanto o patriarca, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chama ressurgia ao sopro da brisa noturna.
Fora ressoavam cânticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.
Por vezes um clarão relampejava diante da gruta à esplêndida passagem rápida de um anjo.
Maria, inclinada sobre o filho, só a ele sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar do leite que ele sugava sôfrego.
Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com seus vergéis floridos, o céu com as suas estrelas fúlgidas.
Que lhe importava a aurora se na penugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ele via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãe!
Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupilas da criança, via dois pequeninos serafins alegres!
Que lhe importava a imensa alegria universal, se o seu coração transbordava de felicidade com aquele amor! Levantou-se um alarido fora, na estrada obscura. José saiu ao limiar.
Um bando de homens corria em tropel em direção ao abrigo agreste. À frente deles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das asas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros. No cimo dos cerros grupos resplandeciam. Súbito uma gaita atroou o silêncio.
4iblio“Hosana! Hosana!”
O pequeno adormeceu docemente com a boca colada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.
“Hosana! Hosana!”
bradavam fora. Ela sobressaltou-se e chamando o esposo, perguntou: - Quem clama assim, meu senhor?
Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o infante. E ela, cuidadosa:
Contanto que o não despertem...
E aconchegou-se ao colo agasalhando-o junto do coração.
DOR
Tomando a urna, ao clarear d’alva, quando o velho pastor saia com o rebanho, José acompanhou-o para que ele o guiasse à fonte.
Logo que os dois homens desapareceram, as ervas que ourelavam(1) a caverna cresceram prodigiosamente, emaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.
A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em êxtase contemplando o filho,cujo hálito débil cheirava docemente a leite. Posto que apenas tivesse horas, já ela lhe havia descoberto todos os encantos e se lho arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças, reconhecê-lo-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.
Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobressalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com ele, comovidas.
Tomou-o Maria ao colo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder aliviá-lo, pôs-se a chorar aflita e, sobre a divina face as suas lágrimas caiam gota a gota como o orvalho cai das folhas sacudidas pelo vento.
Ai! dela, como se julgava culpada e infeliz vendo sofrer o pequenino amor, tão novo, tão inocente, tão sem culpa e já suportando as torturas herdadas da carne.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.