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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— Fui roubado!

— Prenderam o ladrão?

— Sr. duque.

— Oh! Sr. dr. Louro!... explique-me o motivo por que o vejo aqui hoje... Que negócio de roubo é este?...

— Roubaram-me! — interrompeu, fora de si, o marquês d’Etu.

— Sr. d’Etu, tranqüilize-se, havemos de descobrir...

— Sr. duque — começou o chefe de polícia.

— Roubaram-me — cortou o marquês —, roubaram o anel de minha mulher!

— Conte, dr. Louro... — pediu o duque.

— Dr. Trigueiro, conte — repetiu o marquês.

— Dr. Louro, estou curioso...

— Dr. Trigueiro, estou desesperado...

— Ora, sr. marquês... — disse com impertinência o duque — sossegue!

Deixe-me conversar com o doutor chefe de polícia... Havemos de achar o anel.

— Um anel de quinhentos mil réis!... — gemeu prolongadamente o marquês.

— Sr. marquês — disse o chefe de polícia —, as jóias hão de se encontrar.

— As jóias? — interrogou o duque. — Então não se trata só do anel do sr. marquês?

— De minha mulher! — corrigiu o marquês d’Etu, no seu tom lamuriante. — Sr. duque, o negócio é muito mais grave — disse o chefe de polícia.

O fidalgo coçou o queixo com o indicador, mergulhando a mão nas alvas barbas e disse, distraidamente:

— Sim?!...

E, voltando-se para um criado, que estava por trás dele, perguntou:

— O cocheiro já entrou com o carro?...

— Como o sr. duque disse que queria subir a pé...

— Já sei... Já sei... Diga-me se ele já recolheu o carro...

— Sim, senhor!

— Previna-lhe então para que não se esqueça de ver por que está mancando aquele cavalo...

O lacaio fez uma continência e retirou-se apressadamente.

O duque, do alto da sua estatura, deitou majestosamente por cima da cabeça dos circunstantes um vagaroso olhar para os gramados do parque verdejante à luz da formosa manhã; depois de algum tempo, voltou-se para o filho e para o chefe de polícia e disse-lhes muito friamente:

— Se o negócio é grave, é melhor conversarmos dentro de casa...

O chefe de polícia, meio enfiado por ver o pouco caso com que o duque tratava um negócio considerado grave pela polícia, teve de abrir passagem para o senhor de Bragantina, que, havendo parado com a chegada do marquês d’Etu, punha-se de novo a caminho para o palácio.

O príncipe dos cortiços, sempre exaltado e nervoso, teve de interromper umas coisas que dizia vivamente o dr. Trigueiro, para igualmente deixar seguir o duque.

Formou-se logo uma espécie de caravan imensa, que se foi alongando na direção da morada do duque de Bragantina.

À vanguarda, caminhavam os senhores da quinta, o marquês d’Etu, o dr. Louro Trigueiro, o mordomo do palácio e o amigo inseparável do duque, o seu médico, o dr. Jassey. Seguiam-se dois delegados de polícia, soldados, criados e trabalhadores e, no extremo da marcha, um bando de mulheres, tagarelando muito, com uns filhinhos redondos e sujos enganchados ao quadril e outros agarrados às saias.

Por cima da procissão, nadava um zumzum enorme e confuso.

O duque caminhava em silêncio, olhando tranqüilamente para o arvoredo do parque, acompanhando com a vista as linhas caprichosas que as andorinhas traçavam no céu. A duquesa, com a dificuldade própria dos anos, aumentada pelos padecimentos, suspendia-se aos braços do esposo e olhava para o chão, seguindo calada como o duque.

No pórtico do palácio a caravan dividiu-se: os que iam à frente entraram no palácio. Os da retaguarda ficaram quase todos parados em grupos, diante das escadarias do edifício.

Havia lacaios do duque, jardineiros do parque e moradores da aldeola da quinta.

Falavam muito, mas à meia-voz, como em respeito ao palácio.

— Digam lá o que bem quiserem... Para mim, o ladrão das jóias é gente da casa — afirmava uma mocetona robusta e feia, remexendo os ombros e as gordas cadeiras...

— Eu também acho — concordava receosamente outra mulher de seus quarenta anos, com as mãos cruzadas sobre o ventre e um lenço amarrado à cabeça.

— Mas a corda da janela? — objetou de mau humor um lacaio.

— Ora, a corda! — replicou a mocetona. — A corda está lá porque a penduraram!

— Quem pendurou? Não foi quem teve necessidade de subir pela janela aberta?

— Ora qual, seu José, então de dentro não se podia atirar a corda?... Até aquele nó que lá está, não era possível que se desse, sem se achar muito à vontade debruçado na janela.

— Mas quem lhe disse, sua bruxa...

— Bruxa... Olha lá, hein!...

— Quem lhe disse que o ladrão deu o nó, estando cá embaixo?... Antes de dar o nó forte, ele atirou a corda, que é bem comprida, passou uma das pontas por cima do gancho, deu uma laçada com as duas porções, para a corda não escorregar; trepou até o peitoril...

(continua...)

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