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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Ao almoço e ao jantar, longamente discutiam assuntos caseiros e D. Branca via-o quase sempre de bom humor à hora das refeições, dizendo pilhérias, mostrando-se entendido em matéria culinária e em coisas de boudoirs, improvisando anedotas, gracejando, servindo à mulher e ao Evaristo, para poder servir a Adelaide, fito único dos seus olhos e da sua imaginação.

À noite escancaravam-se as janelas da frente e jogava-se à luz do gás amortecido por causa do calor. Nos jogos de parceria, Furtado sentava-se defronte de Adelaide, tocando-se os joelhos, a pontinha dos pés, em torno da pequenina mesa de charão colocada ao centro da sala, e divertiam-se horas e horas, num têteà-tête voluptuoso e calmo, perturbado, às vezes, por uma gargalhada geral que irrompia uníssona das quatro bocas.

Evaristo chamava aquilo, aquelas reuniões familiares "uma pândega", sempre melhor que as da Rua do Ouvidor: mais honesta e menos tumultuosa.

– Inda havemos de fazer um piquenique no Jardim Botânico! - disse uma noite o secretário.

— É verdade, é verdade! — aplaudiu, com entusiasmo, D. Branca.

— Vamos um dia, um domingo, ao Jardim Botânico!

— À Tijuca não seria melhor? — lembrou Evaristo, que ardia por fazer um passeio à "tal Tijuca".

Mas Furtado apontou inconvenientes de ida e volta: — era muito longe a cascatinha, lá onde o diabo perdeu as esporas, enquanto que o Jardim Botânico ficava perto e era mais elegante. Depois, com o tempo, ir-se-ia à Tijuca...

— Em primeiro lugar — concluiu Evaristo — é preciso que esses estrangeiros do segundo andar ponham-se ao fresco, vão para o diabo que os carregue!

E ficou assentado que num belo domingo iriam os dois casais ao Jardim Botânico, em piquenique.

Antes disso, porém, havia o batizado da Julinha. Estava tudo pronto como para uma grande recepção de aniversário: vidros, móveis, tapetes, cristais, o serviço da copa, o buffet, uma quantidade enorme de garrafas, mesa lauta sobre à qual viase toda a baixela da casa e vasos com flores naturais e altas pirâmides de doce, pondo manchas na brancura da toalha, e em cada prato um buquezinho de violeta arranjado especialmente pelas mãos de D. Branca; e em toda a casa, desde a sala de visitas até os fundos da cozinha, um ar alegre de interior holandês, um ar festivo e risonho, cheirando a flores como a atmosfera matinal dos jardins. Viam-se em todo aquele esmero, em toda aquela simplicidade grega — na composição de um vaso, no arranjo dos buquês — o zelo aristocrático de D. Branca e o gosto não menos aristocrático de Luís Furtado harmonizando-se nas menores coisas, traindo-se a cada hora. O papel da sala de visitas parecia mais novo; os quadros destacavam-se, muito nítidos, numa bela disposição ornamental de galeria pobre; o piano sofrera uma mão de óleo e guardava ainda o cheiro da fábrica, de costas para a janela, reluzindo como um espelho; as cortinas pendiam frouxamente das armações de ouro... Enfim, na alcova esponsalícia de D Branca estava o berço de Julinha> todo em festa, ao lado da grande cama de casal. Para aí é que deviam convergir os olhares do desembargador e da mulher, especialmente destes, porque D. Branca entendia que ser dama do paço era merecer as atenções devidas à própria imperatriz; além disso, o velho Lousada tinha, mais do que ninguém, direito a essas atenções como padrinho da pequena. D. Branca esforçara-se por dar ao berço um aspecto luxuoso e sereno, para que se não dissesse que ela, no meio das suas ostentações, pouco amor tinha aos filhos. E conseguira-o, sem desprezar um ou outro conselho quer de Adelaide, quer de Furtado, quer mesmo de Evaristo, que também fora chamado a dar sua opiniãozinha.

— Eu nunca tive filhos, minha senhora... - protestou ele.

Mas a esposa do secretário alegou que era justamente por ele nunca ter tido filhos que lhe pedia a opinião.

E, agarrado por um braço e pelo outro, o marido de Adelaide lembrou, espirituosamente, que se devia colocar na cúpula a seguinte inscrição: Este filho é o último da prole... — o que fez rir muito a D. Sinhá do desembargador, a ela só, porque os outros não acharam graça na idéia.

O leito de Julinha era todo de uma madeira escura e sólida, como ébano-daíndia, e custara um dinheirão ao Furtado. Imitava o casco de urna pequena gôndola com a proa recurva e estreita. Sobre ele caía fartamente uma nuvem de rendas, abrindo-se para um e outro lado e quase tocando o chão. A cúpula era um verdadeiro trabalho de arte, muito simples, mas curioso, representando uma coroa ducal com embutidos de marfim. No alto do cortinado, um grande laço de seda azul com franjas de ouro...

(continua...)

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