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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Caíra em grande abatimento de espírito. Encarara como devia o seu inqualificável procedimento, inspiração do demônio. Sentira a necessidade dolorosa duma penitência severa, proporcionada ao pecado mortal em que abismara a alma. Exagerar mesmo a gravidade da culpa, e nas largas insônias daquelas três noites magras, a fome causara-lhe alucinações terríveis, que dificilmente o seu organismo de matuto, acostumado à alimentação abundante, podia dominar. Persuadira-se de que já estava condenado ao inferno, e ficara horas inteiras, hirto e pálido, sobre a esteira que lhe servia de cama, sentindo um suor frio correr-lhe pela fronte, quando a idéia da morte a surpreendê-lo em pecado mortal vinha assaltar-lhe a mente enferma. Recordara, outras vezes, as descrições que lera das penas do inferno, dos suplícios tremendos que aguardam os condenados, e sobretudo, a idéia da eternidade dos castigos apavorava-o a tal ponto, que se pusera a menoscabar os espantosos padecimentos dos confessores da fé, desses sublimes heróis do cristianismo que com justiça a Igreja proclama santos, por não parecerem homens. Pensara, no seu terror, que nada eram esses sofrimentos, desde que com eles, rigorosamente, se comprava - dá cá, toma lá - a salvação eterna. Julgara-se então capaz do mais cruel martírio, e o próprio S. Quintino não lhe levaria a palma no prazer com que se banharia em azeite fervendo e se deixaria fritar pez derretida. Imaginara uma vida de ascetismo tal que deixasse obscurecida a fama dos Hilariões, Antões e Macários, e mesmo a do grande S. Jacó, no último quartel da sua longa acidentada existência.

Mas - infelizmente - se recordava a sobranceira e desprendimento deste decantado anacoreta, friccionando o peito da pecadora com a mão direita, enquanto deixava arder a esquerda ao calor dum braseiro, não podia esquecer o assassinato cometido pelo santo depois de velho e de ter ganho fama de virtudes, em uma jovem de boa família que lhe fora confiada para a catequese, e que, primeiro, deflorara, e, depois, cortara em pedacinhos para esconder os vestígios do crime...E, mau grado seu, os ardores da sensualidade que procurara comprimir voltavam-lhe em bando sem disciplina, evocando a lembrança de grandes pecadores convertidos, e dandolhe uma ânsia de cometer mais pecados ainda para remi-los todos por um arrependimento sincero, capaz dos maiores sacrifícios e tormentos. Umas vezes requeimava-se ao fogo da concupiscência, sonhando maiores devassidões em que se atolasse duma assentada na plena imundície dos vícios mais desregrados, para saciar a fome de deleites que o devorava, e poder, morta de gozo a parte terrena e demoníaca do seu ser, elevar a alma às regiões sublimes do Amor Divino, pura de toda a mancha do interesse carnal. Outras vezes, queria imaterializar o corpo, dominando-lhe os apetites com o estoicismo de S. Vicente de Paula ou de Santo Efrém, invejando as tentações que sofreram, somente pelo gosto de as colafizar sobranceiramente.

Ao quarto dia, quando lhe vieram abrir do cárcere, estava magro e pálido, denunciando no olhar febril e na agitação do pulso a exaltação que o possuía. Devorara o almoço com um apetite de três dias, e recolhera-se ao dormitório, dizendo-se adoentado.

— Esta febre, dissera o reitor, é obra do demônio da soberba.

A heresia e desobediência de Antônio de Morais causaram grande escândalo no corpo docente, tendo mesmo chegado aos ouvidos do senhor bispo, que muito as estranhara num aluno do Seminário maior.

O reitor dissera um dia à cabeceira do enfermo, julgando-o adormecido:

— É necessário não perder de vista esta alma vacilante. Convém quebrar-lhe a vontade a poder de jejuns e penitências.

A obra anunciada começara em breve, para a felicidade do futuro padre, combatido pelo demônio, auxiliado pelo seu grosseiro temperamento de campônio sensual. Foram duras as provações salutares que lhe impuseram por longos dois meses. Forçavam-no a não satisfazer o apetite, obrigando-o a deixar o jantar em meio para ler aos colegas um capítulo da História Sagrada. Não dormia as suas noites inteiras. Acordavam-no à meia-noite para velar o Santíssimo Sacramento na capela do Seminário. Amesquinhado pela severidade com que o tratavam nas classes, posto num banco isolado, para não contaminar os condiscípulos que o olhavam com zombaria; mal visto dos professores, privado do recreio e entregue a uma meditação constante. Antônio, cujo físico não se abalou, graças à sua robustez camponesa, ficara sem ânimo de reagir contra aquela bendita opressão de todos os dias e de todos os instantes. A enorme vaidade que herdara dos instintos desregrados do pai cedera o passo à humildade de coração, santificadora e eficaz, com que viera afinal a acomodar-se ao regime da disciplina clerical.

Modificara-se. Tornara-se morigerado e dócil. Sofrera com resignação todas as contrariedades com que os senhores padres teimavam em impor-lhe uma submissão que já não recusava, buscando inspirar-se no exemplo da mãe resignada e humilde. Não deixava escapar uma queixa. Compreendia que precisava sujeitar-se ao meio em que as circunstâncias o colocavam para poder um dia, digna e proficuamente, seguir a carreira a que uma irresistível vocação o chamava.

O reitor convencera-se, enfim, de que operara uma conversão milagrosa, e apenas impusera a Antônio de Morais, como condição para receber as ordens maiores, o fazer um retiro espiritual no convento de Santo Antônio, dando-lhe para meditar o tema - Da malícia e das conseqüências do pecado venial.

Agora que estava de posse da vigararia livremente escolhida, tendo, no momento de iniciar definitivamente a sua carreira sacerdotal, sondado o fundo do seu coração, sentia-se cheio de força e de vigor para as lutas da vida.

(continua...)

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