Por Aluísio Azevedo (1880)
Procuravam matar um ao outro.
Lutavam!
E a rocha cada vez mais escorregadia, o céu mais negro e o mar mais bravo.
A luta tendia a enfraquecer: a fera ia sossegando; a massa bruta dilatava-se:
a mole negra parecia diluir-se.
Era o cansaço.
Desfaziam-se como uma nuvem negra no horizonte.
Como um urso enorme e velho, arrastavam-se surda e vagarosamente para a borda do precipício.
Miguel se apercebera disso e reagiu: com um esforço supremo lograra tomar sob si o velho, ficando de gatinhas sobre ele. Tinha um aspecto feroz; o sangue escorria-lhe por entre os dentes e pelas ventas; a posição, como o olhar, eram irracionais. Nesta atitude, ia atirar-se à garganta do adversário, quando este, concentrando o resto das forças, reagiu por sua vez: com um empurrão expeliu de si o moço.
Miguel rolou pela pedra até segurar-se nas asperezas das bordas do precipício.
Maffei não lhe dera tempo para mais, de um salto deitou-se ao comprido no chão, e engatinhando com ligeireza de tigre, agarrou-o pelas costas.
Cinqüenta pés os separavam do mar, e nesse ponto a pedra era inteiramente íngreme, quase cavada.
Miguel torcia-se todo nas mãos do velho.
De repente, um grito agudo e rápido sucedeu a uma gargalhada surda, estalada pelo cansaço. Gargalhadas como só sabem dar um velho mau ou uma mãe doida.
Maffei, e bruços sobre a roda, via tranqüilamente rolar pelo precipício o corpo ensangüentado de Miguel. Um sorriso cansado e triunfante encrespou-lhe os lábios esfolados, ao ouvir o ruído cavo de um corpo que cai na água.
A tempestade, que se preparava ameaçadora, desabou encerrando o espetáculo; e o mar, contente de sua presa, gargalhou com seu rir de espumas.
Começou a chover copiosamente.
Tranqüilo, como nos seus dias mais tranqüilos, o velho levantou-se, sacudiu a roupa molhada e pôs-se a andar para casa silenciosa e pacificamente, como uma menina quando volta do banho do mar.
CAPÍTULO XVIII
No dia seguinte, Maffei e a família abandonaram a formosa ilha, e, no seu completo isolamento, debatia-se a casinha branca nas vascas de um incêndio, ateado de propósito pelo pai e Rosalina.
Defronte daquele chamejar doido e desapiedado, Castor, o cão, uivava plangentemente.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO I
Na célebre rua de Toledo, em Nápoles, porventura mais bela hoje do que no ano de 1843, época em que sucederam os fatos que estamos narrando, figurava uma casa cinzenta com cimalhas de mármore cor-de-rosa.
O edifício tinha trinta metros de altura sobre sessenta de comprimento, e, a julgar da coloração e feitio de portas e janelas, e atentando para as folhas de acanto que ornavam o ábaco das colunas de dez diâmetros de altura e pertencentes sem dúvida à rica e variada ordem coríntia, era talhado pela escola antiga.
A face dianteira, posto que um tanto chata, era bem arquitetada, podendo ser dividida em três partes distintas. — A central, com cinco janelas de honra e três portas de entrada geral, sendo a do centro mais larga e mais guarnecida - e as duas partes laterais, inteiramente iguais entre si, com três janelas cada uma e fechando em graciosa curva as extremidades do frontispício.
Destas extremidades, partiam duas alas de colunas, que, sustentando um esférico avarandado de balaústres do mesmo mármore das cimalhas, ladearam elegante e circularmente o edifício.
O portão central com pilares de mármore também cor-de-rosa abria para um átrio, espécie de corredor quadrado, cujas paredes betumadas com terra cozida apresentava, em alto relevo, assuntos mitológicos, notando-se alguma monotonia na disposição simétrica das figuras meio humanas e meio irracionais, sendo na maior parte fabulosas.
O chão desse corredor, ladrilhado de pedra de diversas cores, terminava por uma ampla escadaria de pedra calcária, dividida em dois lances, que se encontravam na extremidade superior. Aí uma varanda gradeada com vista para o corredor dava passagem para o interior da casa por uma larga e bonita porta, que comunicava imediatamente com a sala de espera, na qual uma infinidade de estatuetas, vasos de pórfiro e outros muito variadíssimos objetos de arte distraiam a atenção de quem lá se achasse.
Seguia-se a sala de visitas, preparada e guarnecida com gosto e rigor, sobressaindo do roxo escuro das paredes a brancura opaca dos bustos e estatuetas de jaspe colocadas de espaço em espaço sobre trabalhadas peanhas de basalto; magníficas mesas de sicómoro, caprichosamente talhadas, refletiam-se, pejadas de delicadas tetéias, nos espelhos oitavados com moldura de metal dourado embutido no ébano; o chão, de madeira brunida, luzia como uma lâmina de aço polido, refletindo o fundo artisticamente talhado das cadeiras e das mesas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.