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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Carlos ria.

- Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.ª D. Maria Eduarda esta a dizer que ella sempre te teve odio...

- Sempre! exclamou Maria.

Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, rirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...

- Eram vesperas de partida, disse ella.

- Sim, bem sei, o marido de v. exc.ª... E como vai o snr. Castro Gomes? V. excª já recebeu noticias?

- Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.

Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...

- Pois v. excª - continuou elle, cheio subitamente de loquacidade - perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. excª estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?

- Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha apostas...

Mas é verdade tambem que não ha publico...

Maria Eduarda ria, alegremente.

- Mas então?

- Vêem-se entrar os navios, minha senhora...

Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...

- Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!

Repetiu ainda que as corridas eram chics. Depois não achou mais nada: - e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...

- Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc.ª não tolero...

Carlos corára: mas Maria Eduarda parceia não ter ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.

De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a snr.ª D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle Rosa. - Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli. no embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que tem chic... Pergunte v. exc.ª ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delicia, até conhecido lá fóra?

- Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...

Pousára Niniche no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.

- Já?... perguntou-lhe Marla Eduarda, com um sorriso que era só para elle. Até ámanhã, então!

E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Ello conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.

- Au revoir, disse o outro. Recados lá no Ramalhete, hei de apparecer!...

Carlos desceu as escadas furioso.

Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o atracão». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse um ultraje? A supposição era insensata, talvez - mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...

Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao

Gremio; e apenas abrira uma vidraça - viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater com forca a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó d'aquelle grutesco...

(continua...)

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