Por Eça de Queirós (1878)
O quarto, onde se não acendera luz havia muito, tinha uma frialdade desabitada na parede, junto ao teto, havia manchas de umidade; e a cama antiga de colunas torneadas sem cortinados, o velho trenó do século passado com o seu espelho embaciado davam, à luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivências extintas. O achar-se ali com a sua mulher, numa cama alheia, trazia-lhe, sem saber por quê, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma alteração brusca - e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a sua existência, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos diferentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua.
Pela manhã, Luísa não se pôde levantar.
Julião, chamado à pressa, tranqüilizou-os:
- É uma febrezita nervosa. Quer sossego, não vale nada. Foi o medozinho de ontem, hem?
- Sonhei toda a noite com ela - disse Luísa. - Que tinha ressuscitado... Que horror!
- Ah! Pode estar sossegada... E já a aviaram, a mulher?
- O Sebastião lá anda com a maçada - disse Jorge. - E eu vou dar uma vista de olhos.
Na rua já se sabia a morte da Tripa Velha.
A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida da Sra. Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, à porta do estanque:
- Muito que fazer agora, Sra. Margarida, hem?
- Bastante, bastante, Sra. Helena - disse a amortalhadeira com a voz um pouco rouca. - Noinverno sempre há mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito para vestir...
A Sra. Margarida tinha predileções artísticas. Gostava de um bonito corpo de dezoito anos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava à má cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o chique de uma flor, de um laço; trabalhava com os requintes ajanotados de uma modista do sepulcro.
A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias dela, os luxos do quarto tapetado... A Sra. Margarida dizia-se "banzada". E para quem agora iria tudo aquilo? - perguntavam. - A Tripa Velha não tinha parentes...
- Era uma riqueza para a minha Antoninha! - disse a amortalhadeira traçando o xale comtristeza.
- Como vai ela, a pequena?...
- Aquilo vai mal, Sra. Helena. Aquela cabeça doida! - E exalando a sua dor com loquacidade: Deixar o brasileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquele desalmado, que lhe come tudo, que já lhe arranjou um filho e que a derreia com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão atrás do palmo de cara... Que ele é bonito rapaz! Mas um bêbedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, Sra. Helena. - E entrou na casa compungidamente.
O padre já chegara também. Estava na sala com Sebastião, que conhecia de Almada, e falava de lavoura, de enxertos, das regas, numa voz grossa - passando, com um gesto lento da sua mão cabeluda, o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janelas em toda a casa estavam abertas ao sol muito doce. Os canários chilreavam.
- E estava há muito tempo na casa, a defunta? - perguntou o padre a Jorge, que passeava pelasala, fumando.
- Há quase um ano.
O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar:
- A sua senhora há de sentir muito... É um tributo universal!...
E assoou-se com estrondo.
A Joana, então, de xale e lenço, apareceu, em bicos de pés. Soubera pelos vizinhos que a Juliana "arrebentara", que os senhores estavam em casa do Sr. Sebastião. Vinha de lá. Luísa mandara-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica senhora, lacrimejou muito. Luísa disse-lhe - que agora estava tudo como dantes, podia voltar...
- E ouça. Joana, se o Sr. Jorge lhe perguntar... que esteve em Belas com à tia...
A rapariga fora logo buscar a trouxa e vinha instalar-se - um pouco assustada da morte em casa.
Daí a pouco o Paula bateu discretamente à porta.
Ali vinha oferecer-se para o que fosse necessário naquele transe! E tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrosa:
- Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortais...
- Bem, bem, Sr. Paula, não é necessário nada - disse Jorge. - Obrigado!
E fechou bruscamente a cancela.
Estava impaciente por se desembaraçar "daquela estopada"; e mesmo como o enfastiavam as marteladas espaçadas dos homens pregando o caixão, em cima, chamou a Joana:
- Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida!
A Joana foi logo dizer que o senhor estava um frenesi! Tinha-se feito já íntima da Sra. Margarida. A amortalhadeira fora mesmo com ela à cozinha para tomar uma "sustanciazinha". Como o lume estava apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho.
- Sopinha de burro - dizia, fazendo estalar a língua.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.