Por Eça de Queirós (1878)
Mas uma carruagem entrou na rua, parou à porta.
- Chegam os príncipes! - disse Julião. Desceram logo.
Jorge ajudava a Luísa a sair do trem, quando Sebastião, abrindo a porta bruscamente:
- Houve cá grande novidade!
- Fogo? - gritou Jorge voltando-se aterrado.
- A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma - disse a voz de Julião da sombra da porta.
- Oh, com os diabos! - E Jorge atarantado procurava à pressa na algibeira troco para o cocheiro.
- Ai, eu já não entro! - exclamou logo D. Felicidade, mostrando à portinhola a sua larga faceenvolvida numa manta branca. - Eu já não entro!
- Nem eu! - fez Luísa toda trêmula.
- Mas para onde queres que vamos, filha? - exclamou Jorge.
Sebastião lembrou que podiam ir para casa dele. Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençóis na cama.
- Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor! - suplicou Luísa.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao ver aquele grupo junto à lanterna do trem, parou. E Jorge enfim, instado, muito contrariado, consentiu.
- Diabo de mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, D. Felicidade...
- E a mim, que estou em chinelas! - acudiu Julião.
D. Felicidade lembrou então, como cristã, que era necessário alguém, para velar a morta...
- Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade! - exclamou Julião entrando logo para a carruagem,batendo com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! Ao menos pôr duas velas, mandar chamar um padre!...
- Largue, cocheiro! - berrou Julião impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade à portinhola, apesar de Julião que a puxava pelos vestidos, gritava:
- É um pecado mortal! É uma irreverência! Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote:
Luísa agora tinha escrúpulos: realmente podia-se mandar chamar alguém...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, àquela hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez câmara ardente. Queria ela ir velá-la?...
- Então, Jorge, então!... - murmurava Sebastião.
- Não, é demais! É vontade de criar embaraços, que diabo!
Luísa baixava a cabeça; e, enquanto Jorge, praguejando, ficou atrás a fechar a porta da casa, ela foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
- Estourou de raiva - disse-lhe ele baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idéia, irem dormir agora fora de casa! Realmente era levar muito longe as mariquices!...
Até que Luísa lhe disse, quase chorando:
- Vê se me queres torturar mais e fazer-me mais doente, Jorge!
Ele calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a sossegar, propôs que viesse a tia Vicência, a preta, velar a Juliana.
- Era talvez melhor - murmurou Luísa.
Chegaram à porta de Sebastião. O frufru do vestido de seda de Luísa, àquela hora, na sua casa, dava uma comoção a Sebastião: a mão tremia-lhe ao acender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicência para fazer chá; tirou ele mesmo os lençóis dos baús, apressado, feliz daquela hospitalidade. Quando voltou à sala, Luísa estava só, muito pálida, ao canto do sofá.
- Jorge? - perguntou ele.
- Foi ao seu escritório, Sebastião, escrever ao pároco para o enterro... E com os olhosbrilhantes, numa voz sumida e assustada: - Então?
Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ela agarrou-a sofregamente - e com um movimento brusco tomou-lhe a mão e beijou-lha.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
- Então agora está mais descansada, a menina?
- Inteiramente - disse ela com um suspiro de alívio.
Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a maneira como entrara em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fora despedida, e falando, exaltando-se, zás, de repente, caíra para o lado morta...
E acrescentou:
- Coitada!
Luísa via-o mentir, olhando-o com adoração.
- E a Joana? - perguntou Jorge de repente. Luísa, sem se perturbar, respondeu:
- Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença para ir ver uma tia que está muito mal, para oslados de Belas... Diz que volta amanhã... Mais uma gota de, chá, Sebastião...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicência - e ninguém velou a morta.
CAPÍTULO XIV
Luísa passou a noite às voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da freqüência do seu pulso e do calor seco da pele.
Ele mesmo muito nervoso, não pudera dormir.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.