Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Em algumas partes do sertão da Bahia se acham esmeraldas mui limpas e de honesto tamanho, as quais nascem dentro em cristal, e como elas crescem muito, arrebenta o cristal; e os índios quando as acham dentro nele, põem-lhe o fogo para o fazerem arrebentar, de maneira que lhe possam tirar as esmeraldas de dentro, com o que elas perdem a cor e muita parte do seu lustro, das quais esmeraldas se servem os índios nos beiços, mas não as podem lavrar como as pedras ordinárias que trazem nos beiços, de que já falamos. E entende-se que assim como estas esmeraldas se acham sobre a terra são finas, que o serão muito mais as que se buscarem debaixo dela, e de muito preço, porque a que a terra despede de si deve ser a escória das boas que ficam debaixo, as quais se não buscaram até agora por quem lhe fizesse todas as diligências, nem chegaram a elas mais que mamelucos e índios, que se contentavam de trazerem as que acharam sobre a terra, e em uma das partes onde se acham estas esmeraldas, que é ao pé de uma serra, onde é de notar muito o seu nascimento; porque ao pé desta serra, da banda do nascente, se acham muitas esmeraldas dentro no cristal solto onde elas nascem; de onde trouxeram uns índios amostras, coisa muito para ver; porque, como o cristal é mui transparente, trespassam as esmeraldas com seu resplandor da outra banda, às quais lhes firam as pontas da banda de fora, que parece que as meteram a mão pelo cristal. E ao pé da mesma serra, da banda do poente, se acham outras pedras muito escuras que também nascem no cristal, as quais mostram um roxo cor de púrpura muito fino, e tem-se grande presunção de estas pedras poderem ser muito finas e de muita estima. E perto desta serra está outra de quem o gentio conta que cria umas pedras muito vermelhas, pequenas e de grande resplandor.Afirmam os índios tupinambás, os tupinaés, tamoios e tapuias e os índios que com eles tratam neste sertão da Bahia e no da capitania de São Vicente, que debaixo da terra se cria uma pedra do tamanho e redondeza de uma bola, a qual arrebenta debaixo da terra; e que dá tamanho estouro como uma espingarda, ao que acodem os índios e cavam a terra, onde toou este estouro, onde acham aquela bola arrebentada, em quartos como romã, e que lhe saem de dentro muitas pontas cristalinas do tamanho de cerejas, as quais são de uma banda oitavadas e lavradas mui sutilmente em ponta como diamante, e da outra banda onde pegavam da bola tinham uma cabeça tosca, das quais trouxeram do sertão amostras delas ao governador Luís de Brito, que quando as viu teve pensamento que seriam diamantes; mas um diamante de um anel entrava por elas, e a casca da bola era de pedra não muito alva, e ruivaça, por fora.
C A P Í T U L O CXCVI
Em que se declara a muita quantidade de ouro e prata que há na comarca da Bahia.
Dos metais de que o mundo faz mais conta, que é o ouro e prata, fazemos aqui tão pouca, que os guardamos para o remate e fim desta história, havendo-se de dizer deles primeiros, pois esta terra da Bahia tem dele tanta parte quanto se pode imaginar; do que podem vir à Espanha cada ano maiores carregações do que nunca vieram das Índias Ocidentais, se Sua Majestade for disto servido, o que se pode fazer sem se meter nesta empresa muito cabedal de sua fazenda, de que não tratamos miudamente por não haver para quê, nem fazer ao caso da tenção destas lembranças, cujo fundamento é mostrar as grandes qualidades do Estado do Brasil, para se haver de fazer muita conta dele, fortificando-lhe os portos principais, pois têm tanto cómodo para isso como no que toca à Bahia está declarado; o que se devia pôr em efeito com muita instância, pondo os olhos no perigo cm que está de chegar à notícia dos luteranos parte do conteúdo neste Tratado, para fazerem suas armadas, e se irem povoar esta província, onde com pouca força que levem de gente bem armada se podem senhorear dos portos principais, porque não hão de achar nenhuma resistência neles, pois não têm nenhum modo de fortificação, de onde os moradores se possam defender nem ofender a quem os quiser entrar. Se Deus o permitir por nossos pecados, que seja isto, acharão todos os cômodos que temos declarado e muito mais para se fortificarem, porque hão de fazer trabalhar os moradores nas suas fortificações com as suas pessoas, com seus escravos, barcos, bois, carros e tudo mais necessário, e com todos os mantimentos que tiverem por suas fazendas, o que lhes há de ser forçado fazer para com isso resgatarem as vidas; e com a força da gente da terra se poderão apoderar e fortificar de maneira que não haja poder humano com que se possam tirar do Brasil estes inimigos, de onde podem fazer grandes danos a seu salvo em todas as terras marítimas da coroa de Portugal e Castela, o que Deus não permitirá; de cuja bondade confiamos que deixará estar estes inimigos de nossa santa fé católica com a cegueira que até agora tiveram de não chegar à sua notícia o conteúdo neste Tratado, para que lhe não façam tantas ofensas estes infiéis, como lhe ficarão fazendo se se senhorearem desta terra, que Deus deixe crescer em Seu santo serviço; com o que o Seu santo nome seja exalçado, para que Sua Majestade a possa possuir por muitos e felizes anos com grandes contentamentos.
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.