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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Não. Lã estava como a deixara, estendida na esteira, com os braços abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas arregaçara-lhe as saias, viam-se as suas canelas magras com meias de riscadinho cor-de-rosa e as chinelas de tapete; o candeeiro de petróleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons lívidos na testa, nas faces rígidas; a boca torcida fazia uma sombra; e os olhos medonhamente abertos, imobilizados na agonia repentina, tinham uma vaga névoa, como cobertos de uma teia de aranha diáfana. Em redor tudo parecia mais imóvel, de um hirto morto. Vagos reflexos de prata reluziam no aparador; e o tique-taque do cuco palpitava sem descontinuar.

Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse:

- Está morta com todas as regras. E necessário tirá-la daqui. Onde é o quarto?

Sebastião, pálido, fez sinal com o dedo que era por cima.

- Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candeeiro. - E como Sebastião não se movia: - Tens medo? perguntou rindo.

Escarneceu-o: que diabo, era matéria inerte, era como quem agarrava uma boneca! Sebastião, com um suor à raiz dos cabelos, levantou o cadáver por debaixo dos braços, começou a arrastálo, devagar. Julião adiante erguia o candeeiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da marcha do Foosto. Mas Sebastião escandalizou-se, e com uma voz que tremia:

- Largo tudo, e vou-me...

- Respeitarei os nervos da menina! - disse Julião curvando-se.

Continuaram calados. Aquele corpo magro parecia a Sebastião de um peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinelas do cadáver soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma coisa que lhe batia contra os joelhos; era a cuia caída, suspensa por um atilho.

Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as tradições- pôs-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos.

Esteve um momento a olhá-la:

- Feia besta! - murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha enxovalhada.

Ao sair examinou, admirado, o quarto:

- Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!

Fechou a porta, deu a volta à chave:

- Requiescat in pace - disse.

E desceram, calados.

Ao entrar na sala, Sebastião, muito pálido, pôs a mão no ombro de Julião:

- Então achas que foi o aneurisma?

- Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...

- Se não se tivesse zangado hoje...

- Estourava amanhã. Estava nas últimas... Deixa em paz a criatura. Está começando a esta horaa apodrecer, não a perturbemos.

Declarou então, esfregando as mãos com frio, que comia alguma coisa. Achou no armário um pedaço de vitela fria, uma garrafa meia de Colares. Instalou-se e, com a boca cheia, deitando o vinho do alto:

- Então sabes a novidade, Sebastião?

- Não.

- O meu concorrente foi despachado!

Sebastião murmurou:

- Que ferro!

- Era previsto - disse Julião com um grande gesto. - Eu ia fazer um escândalo, mas... - e teve umrisinho - amansaram-me! Estou num posto médico, deram-me um posto médico! Atiraram-me um osso!

- Sim? - fez Sebastião. - Homem, ainda bem, parabéns. E agora?

- Agora, roê-lo.

De resto, tinham-lhe prometido a primeira vagatura. O posto médico não mau... Em definitivo, a situação melhorara...

- Mas mesquinha, mesquinha! Não saio do atoleiro...

Estava farto de Medicina, disse depois de um silêncio. Era um beco sem saída. Devia-se ter feito advogado, político, intrigante. Tinha nascido para isso!

Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz cortante, expôs um plano de ambição: - O país está a preceito para um intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, de catarros de bexiga, de antigas sífilis! Tudo isto está podre por dentro e por fora! O velho mundo constitucional vai a cair aos pedaços... Necessitam-se homens!

E plantando-se diante de Sebastião:

- Este pais, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o país há de procurar quem tenha os princípios. Mas quem tem aí princípios? Quem tem aí quatro princípios? Ninguém; têm dívidas, vícios secretos, dentes postiços; mas princípios, nem meio! Por conseqüência se houver três patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia dúzia de princípios sérios, racionais, modernos, positivos, o país tem de se atirar de joelhos e suplicar-lhes: "Senhores, fazei-me a honra insigne de me pôr o freio nos dentes!" Ora, eu devia ser um destes. Nasci para isso! E seca-me a idéia de que enquanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, hão de estar no poleiro a reluzir ao sol, al hermoso sol portugués, como se diz nas zarzuelas, eu hei de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas de algum desembargador caduco.

Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.

- Estúpido país, estúpida vida! - rosnou Julião.

(continua...)

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