Por Eça de Queirós (1888)
- Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu volto já, vou alli ao café encher o frasco de cognac. Com a afflição esquecia-me o cognac...
Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos, respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluçava por baixo do véo. Carlos, vendo um wagon com a papeleta de reservado imaginou lá a condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? Não sabia que era o reservado do snr. Carneiro?
- Não sabia.
- Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava, atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a proposito de lugares, tratavam-se de malcriados; adiante, uma criança esperneava no collo da ama, aos gritos.
- Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente, surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braço pela cinta.
- Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lugubre massada de ter d'ir a Penafiel!
- E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou para o seu wagon, enterrou na cabeça um barretinho de sêda - e depois debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo no Brazil, e ella alli, á mão, a dois passos do Gremio!...
Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto de surpreza:
- Olha os Gouvarinhos!
Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de paletot alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia, vinha conversando com um empregado superior da estação, agaloado de ouro, que se encarregára da chapeleira de
papelão de s. exc.ª E a condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr de castanho, um véo cinzento que lhe cobria a face e o chapéo, seguia atraz, com a criada escosseza, trazendo na mão um ramo de rosas. Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
- Por aqui, Maia?
- De viagem, conde?
É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do papá... Resolução da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
- Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao pobre Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
Debruçado da portinhola, com as mãos de fóra calçadas de negro, o pobre Damaso cstava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o bom Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu shake-hands e o seu pezame.
Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
- Que ferro!
- Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que fuzilou através do véo. Tudo tão bem arranjado, e á ultima hora teima em vir!...
Carlos acompanhou-os até ao reservado, n'um outro wagon que se estivera mettendo de novo para s. exc.ª A condessa tomou o lugar do canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava:
- Então vão com demora?
O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:
- Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
- Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma navalha.
O conde não respondeu, lívido.
Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido secco de freios retesados, começou a rolar, com gente ás portinholas, que ainda se debruçava, estendendo a mão para
um ultimo aperto. Aqui e além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de Carlos teve a doçura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.