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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Aí tem! - gritou ela atirando-lhe a carteira. E brandindo para ele os punhos: - Raios te partam,malvado!

Sebastião apanhou a carteira. Havia três cartas: uma muito dobrada era de Luísa; leu a primeira linha: "Meu adorado Basílio"; e muito pálido guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: a possante figura do Mendes estava na sombra.

- Está tudo arranjado, Sr. Mendes - a voz tremia-lhe um pouco -, não lhe quero tomar maistempo.

O homem fez uma continência, calado; quando Sebastião, no patamar, lhe resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, com uma voz pegajosa:

- E para o que quiser, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda. Não se incomodeVossa Senhoria. Às ordens de Vossa Senhoria minha mulher e filhos agradecem. Não se incomode Vossa Senhoria. O sessenta e quatro, O Mendes, que foi da Guarda!

Sebastião fechou a cancela, voltou à sala de jantar. Juliana ficara numa cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:

- A bêbeda foi-lhe contar tudo! Foi você que arranjou a armadilha! Também você dormiu comela!...

Sebastião, muito branco, dominava-se.

- Vá pôr o chapéu, mulher. O Sr. Jorge despediu-a. Amanhã mandará buscar os baús...

- Mas o homem há de saber tudo! - berrou ela. - Este teto me rache se eu não lhe disser tudotintim por tintim. Tudo! As cartas que recebia, onde ia ver o homem. Deitava-se com ela na sala, até os pentes lhe caíam na balbúrdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido!

- Cale-se! - bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer toda a louça doaparador e esvoaçar os canários. E com a voz toda trêmula, os beiços brancos: - A polícia tem o seu nome, sua ladra! A menor palavra que você diga vai para o Limoeiro, e pela barra fora. Você não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençóis, vestidos... - Juliana ia falar, gritar. Bem sei

- continuou ele violentamente -, - deu-lhos ela, mas à força, porque você a ameaçava. Vocêarrancou-lhe tudo. É roubo. É de África! - É o que é dizer ao Jorge, pode ir dizer. Vá. Veja se ele a acredita. Diga! São algumas bengaladas que leva por esses ombros, sua ladra!

Ela rangia os dentes; Estava apanhada! Eles tinham tudo por si, a polícia, a Boa Hora, a cadeia, a África!... E ela - nada!

Todo o seu ódio contra a Piorrinha fez explosão. Chamou-lhe os nomes mais obscenos. Inventou infâmias.

- É que nem as do Bairro Alto! E eu - gritava - sou uma mulher de bem, nunca um homem sepode gabar de tocar neste corpo. Nunca houve raio nenhum que me visse a cor da pele. E a bêbeda!... - Tinha arremessado o xale, alargou ansiosamente o colar do vestido. - Era um desaforo por essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! Os diabos me levem se eu não for para os jornais. Vi-a eu abraçada ao janota, como uma cabra!

Sebastião a seu pesar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por aqueles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ela se calou arquejante:

- Vá, ponha o chapéu, e para a rua!

Juliana então alucinada de raiva, com os olhos saídos das órbitas, veio para ele e cuspiu lhe na cara!

Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para trás, levou com ânsia as mãos ambas ao coração, e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo de roupa.

Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma roxa aparecia-lhe aos cantos da boca.

Agarrou no chapéu, desceu as escadas, correu até a Patriarcal. Um cupê passava; atirou-se para dentro, mandou a "todo o que der", para a casa de Julião; e obrigou-o a vir imediatamente, mesmo em chinelas, sem colarinho.

- É caso de morte, é a Juliana - balbuciava muito pálido.

E pelo caminho, entre o ruído das rodas e o tilintar dos caixilhos, contava ente que entrara em casa de Luísa, que achara Juliana muito despeitada por ter sido despedida, e que a falar, a esbracejar, de repente, tombara para o lado!

- Foi o coração. Estava para dias - disse Julião, chupando a ponta do cigarro.

Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sair, fechara a porta! E dentro só a morta! O cocheiro ofereceu a sua gazua, que serviu.

- Então nem se vai a uma passeatinha ao Dafundo, meus fidalgos? - disse o homem, metendo agorjeta na algibeira.

Mas vendo-os atirar com a porta:

- Também não é gente disso - rosnou com desprezo, batendo a parelha.

Entraram.

No pequeno pátio o silêncio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que se lhe afiguravam infindáveis; e, com fortes pancadas do coração, esperava ainda que ela estivesse apenas adormecida num desmaio simples, ou já de pé, pálida e respirando!

(continua...)

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