Por Eça de Queirós (1878)
E o comissário cofiava refletidamente o bigode com os seus longos dedos magros, muito queimados de cigarro.
Sebastião hesitou:
- Sim. Roupas, coisas... E para não haver escândalo... Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
- Um policia para se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
- Não é coisa de política?
- Não! - fez Sebastião.
O comissário embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os olhos, ferozmente:
- Nem toca com gente graúda?
- Qual!
- Um policia para se mostrar... - ruminava o Vicente. - Tu és um homem de bem... Dá cá aquelapasta de cima da cômoda.
Tirou um papel pautado, examinou, acavalando a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre a testa:
- O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:
- Sim, quem quiseres. É só para se mostrar...
- O Mendes. E um homenzarrão. É sério, foi da Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; cortou os tt, secoua à chaminé do candeeiro; e dobrando-a com solenidade:
- À segunda divisão!
- Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, homem. E não te esqueças: água sulfúrica da Farmácia Azevedo na Rua de São Roque; meia chávena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, hem? ar
- Não. Dá uma placa ao Mendes. É sério, foi da Guarda!
- E acavalando as lunetas retomou o Homem dos três calções.
Sebastião daí a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava naturalmente que Juliana vendo àquela hora da noite, o polícia com o seu terçado, se aterraria, imaginaria Boa Hora, o Limoeiro, a costa da África, entregaria as cartas, pediria misericórdia! E depois? Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brasil, ou dar-lhe quinhentos mil réis para ela se estabelecer longe, na província... O essencial era aterrála!
Juliana com efeito, depois de abrir a porta, apenas viu subir, atrás de Sebastião o policia, fez-se muito amarela, exclamou:
- Credo! Que temos nós?
Estava embrulhada num xale preto, e o candeeiro de petróleo, que ela erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.
- Ó Sra. Juliana, faça o favor de acender luz na sala - disse Sebastião tranqüilamente.
Ela fixava no polícia um olhar faiscante e inquieto.
- Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se soubesse nem tinhaaberto... Há alguma novidade? Olha o propósito!
- Não é nada... - disse Sebastião, abrindo a porta da sala. - Tudo em paz.
... Ele mesmo acendeu com um fósforo uma vela na serpentina - que fez sair vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a pálida face do retrato da mãe de Jorge, um reflexo de espelho.
- Ó Sr. Mendes, sente-se, sente-se!
O Mendes colocou-se à beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado entre os joelhos, muito soturno.
- Esta é que é a pessoa - disse Sebastião indicando Juliana, que ficara à porta da sala atônita.
A mulher recuou, lívida:
- Ó senhor Sebastião, que brincadeira é esta?
- Não é nada, não é nada...
Tomou-lhe o candeeiro da mão, e tocando-lhe no braço:
- Vamos lá dentro à sala de jantar.
- Mas que é? É alguma coisa comigo? Credo! E esta! Olha que desconchavo!
Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candeeiro sobre a mesa, onde havia ainda um prato com côdeas de queijo e um fundo de vinho num copo, deu alguns passos fazendo estalar nervosamente os dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:
- Dê cá umas cartas que roubou à senhora...
Juliana teve um movimento para correr à janela, gritar.
Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre a cadeira:
- Escusa de ir à janela gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá as cartas, ou para aenxovia!
Juliana entreviu num relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo do rancho, a enxerga nas lajes frias...
- Mas que fiz eu? - balbuciava. - Que fiz eu?
- Roubou as cartas. Dê-as para cá, avie-se.
Juliana, sentada à beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, rosnava por entre os dentes cerrados:
- A bêbeda! A bêbeda!
Sebastião, impaciente, pôs a mão no fecho da porta.
- Espere, seu diabo! - gritou ela erguendo-se com um salto. Fixou-o rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, num frenesi:
- Não! Não! Não!
- Diabos me levem se você não for dormir à enxovia! - Entreabriu a porta. - Ó Sr. Mendes!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.