Por Visconde de Taunay (1871)
Estavam os inimigos, então, a pequena distância de nós, perto da mata que beirava um ribeirão. Avançavam sensivelmente estendendo-se em linha de atiradores, correndo de um lado para outro, sob as ordens de um oficial, que entre eles se destacava; e súbito mandou se retirassem: perdemo-los de vista. Após tão prolongada espera ordenou o comandante que volvêssemos às nossas posições.
Pela manhã de 19 deixamos o acampamento. O Coronel destacou o 21.° batalhão para a vanguarda com a recomendação de nunca perder de vista o grosso do corpo do exército, durante a marcha, embora sempre a ganhar terreno. Seguia o resto em estacamentos, próximos uns dos outros, mas, como a animação dos soldados e a dos oficiais corressem parelhas, avançaram os corpos sem prestar grande atenção ás ordens dadas, achando-se por vezes separados por distâncias maiores do que a prudência aconselhava.
À passagem do Taquaruçu, cuja ponte acabavam os paraguaios de destruir, deu-lhes a vanguarda uma descarga, embora quase estivessem fora de alcance. Viu-se um de seus cavaleiros cair ferido. Tomou-o um dos camaradas á garupa, enquanto o terceiro lhe laçava a montaria que fugia, sentindo-se solta. Ao presenciar esta primeira cena de guerra, queriam os nossos soldados deitar-se á água para perseguir o inimigo, quando um toque de clarim do quartel-general os fez estacar. Toda a coluna achou-se logo agrupada atrás deles. Neste entrementes os engenheiros restabeleciam a ponte; bastou-lhes uma hora. Efetuou-se a passagem e a marcha recomeçou à outra margem.
Vencendo pequenos planaltos interpostos às depressões paralelas que sulcam aquela campina, avançamos até a base de uma colina que domina toda a vizinhança. Achara a nossa vanguarda esta posição ocupada por um piquete de cavaleiros; estacou então, e todas as nossas unidades, isoladas, assim fizeram também, uma após outra. Examinaram-nos, então, os paraguaios: nada entre nós e eles se interpunha; podiam contar-nos à vontade. Foi para nós grande desvantagem. Até então julgavam, dando crédito aos nossos refugiados, que a coluna brasileira contava nada menos de seis mil homens, e nosso comandante, como regra de guerra, esforçara-se por lhes alimentar a abusão. Desfizera-se-lhes a ilusão, desvanecida ao primeiro olhar lançado sobre nós.
Mais uma razão para que logo e logo os atacássemos, mas o comandante manteve-nos imóveis.
Só mais tarde soubemos por quê: provinha de intimo motivo: estávamos em sexta-feira Santa e a iniciativa de urna ação de guerra, no próprio dia da morte do Salvador, repugnava a um coração religioso como o do nosso chefe, escravo de todos os nobres sentimentos, a ponto de os exagerar até á contradição, inquieto e como perturbado pelo pressentimento do fim próximo.
Durou-lhe a hesitação bastante para que o destacamento paraguaio não mais receando ser atacado e, cheio de desprezo, talvez, pela nossa pequena força atirada, sem cavalaria alguma, em vastas planícies encharcadas, onde todo o homem a pé é assunto de escárnio, se lembrasse pela atitude, de nos dar insolentes mostras de desdém que lhe inspirava a inferioridade de nossos recursos militares e, por meio de demonstrações ruidosas, nos fazer ver quanto considerava inúteis quaisquer precauções contra nós. Descavalgaram todos os homens, assentando-se uns á sombra das macaúbas, ao passo que outros faziam tranqüilamente pastar os cavalos. Fazia-nos ferver o sangue aquele afetado descuido. Felizmente, afinal, até ao nosso chefe atingiu esta indignação. Decidiu-se a agir. Só havia um meio de rápido emprego e deste lançamos mão. Fez Marques da Cruz avançar a sua peça e uma granada silvou ao meio das aclamações dos nossos soldados. Atingiu a base de alta palmeira, que abrigava bom número de cavaleiros e depois de ricochetear explodiu no ar.
Foi, pelo menos, para nós, um prazer vermos o efeito produzido, a surpresa, o alarma, a confusão. Correram uns ap6s os animais que a detonação dispersara; cavalgaram outros, precipitadamente; e sem mais detença dispararam pelo campo, a todo o galope. Passados poucos minutos desaparecera o destacamento inteiro. Lançou-se-lhe segundo projetil, e logo em seguida terceiro, que alcançou mais de meia légua e deu a conhecer ao inimigo a força de nossa artilharia. Toda esta tropa fugidia só haveria de reaparecer diante da fazenda da Machorra, na fronteira.
Chegados esta tarde, à margem de um ribeirão, que os espanhóis chamam Sombrero, fomos acampar no triângulo que ele ali forma, confluindo com o Apa. Admiramos este belo rio, fronteira dos dois países e cujo aspecto, com sua mata cerrada, tanto nos impressionara quando de longe o avistáramos. Grande futuro lhe está reservado após a guerra.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.