Por Franklin Távora (1879)
Na mesma sala em que Albuquerque e Maurícia tinham conferenciado sobre o grave assunto que vimos, foi introduzido, seriam noves horas da manhã, no dia da festa em honra de Eugênia, um homem que poderia ter quarenta anos de idade. Era alto, magro, pálido. Tinha a fisionomia desfigurada. Trajava de peto. Trazia os cabelos e a barba crescidos, a camisa enxovalhada.
— Queira ter a bondade de dizer o que o trouxe a esta casa, disse-lhe Albuquerque.
— Senhor, disse o sujeito, estava eu no leito de morte, quando um amigo, com o intento de reanimar-me, deu-me a ler uma carta em que uma pessoa desta cidade recomendava a outra, moradora na em que eu agonizava, que lhe desse informações minuciosas acerca do meu estado moral, sobre os meus meios de vida, etc.
— Estou falando com o Sr. Bezerra? - inquiriu Albuquerque.
— Sim, senhor; tornou o sujeito.
— Sente-se.
Depois de um minuto e silêncio, Bezerra prosseguiu:
— V.S. terá bem presente tudo o que disse nessa carta?
— Lembra-me por alto o que escrevi.
— Falo-lhe nestes termos porque eu a tenho de cor, o que não deve causar espanto, visto ser ela a minha salvação. Posso assegurar a V.S. que as suas letras me arrancaram das garras da morte.
— Eu tudo ignoro a seu respeito, porque a pessoa a quem pedi informações nenhuma me deu ainda.
— Essa pessoa julgou-se dispensada de o fazer, quando soube que eu vinha a Pernambuco. Procurou-me para me pedir que entregasse a V.S. a presente carta.
Assim falando Bezerra punha nas mãos de Albuquerque a carta a que se referira.
— É uma carta de apresentação.
Albuquerque, depois de lê-la, disse a Bezerra:
— Antes de passarmos adiante, julgo no meu dever declarar-lhe que nenhuma parte teve no passo que dei para obter as informações a seu respeito a Sra. D. Maurícia.
— Minha mulher... disse Bezerra.
— Andei nisso por exclusiva inspiração minha, e até a este momento ela tudo ignora a semelhante respeito.
A estas palavras, Bezerra tornou-se mais pálido do que era.
— Ah! disse. Eu cuidava que tudo se havia feito por indicação dela.
— Não, senhor.
— Sei, prosseguiu Bezerra, que minha mulher não encontrou em V.S. somente um cavalheiro, encontrou também um irmão.
— Não lhe tenho feito senão aquilo a que tem direito, pelas suas qualidades pessoais.
— V.S. diz a verdade nestas últimas palavras, minha mulher é uma adorável criatura; e só a cegueira em que vivi nos primeiros anos depois do meu casamento poderia dar origem a cenas fatais que hoje eu recordo com pejo. Mas, senhor, posso assegurar-lhe que a cegueira está agora de todo extinta; e que, ensinado pela experiência, castigado pela sorte, trago para minha mulher o primeiro dos meus afetos, e para a minha querida Virgínia todos os extremos de que é capaz o mais terno dos pais.
Albuquerque tinha os olhos fixos em Bezerra, que parecia exprimir-se não com os lábios, mas com a alma.
Bezerra não fora destituído de graça nas suas feições, de vivacidade no olhar.
Conhecia-se pelas ruínas ainda notáveis destes dotes que eles tinham sido pingues. O senhor de engenho ouvia-o com toda atenção, e não sem prazer.
Bem depressa, Bezerra conheceu que da parte do seu interlocutor havia toda a benevolência para ele. Considerou, então, ganha a sua causa.
Continuou:
— Apanhei muito na cabeça, senhor, apanhei muito mesmo. Fui negociante, fazendeiro, advogado, jornalista. Tudo o que era meu se foi pela água abaixo; mas o meu primeiro tesouro, a minha única fortuna, que eu julgava para sempre perdido, a Deus aprouve que tivessem em V.S. um defensor, um protetor, um depositário venerável. Obrigado, senhor, brigado. Vendido e revendido eu não poderia pagar-lhe este serviço, esta honra, esta esmola, esta felicidade.
— Sr. Bezerra, atalhou Albuquerque, o senhor está laborando em verdadeira equivocação informando-me do estado da sua vida. Não foi meu intento chamá-lo a Pernambuco para restituir-lhe a família que o senhor deixou sair pela porta afora em pranto e desespero. Não tinha e não tenho autoridade para isso. Informei-me por mera curiosidade. Eu queria saber se a mulher que eu recebera no seio de minha família tinha razão de estar separada do marido, até certo ponto pareceu-me até dever meu ter disso conhecimento para minha direção. Se, pelas minhas informações, eu chegasse a convencer-me de que a Sra. D. Maurícia não era digna de viver à minha sombra, retirar-lhe-ia imediatamente toda a confiança, e sobre as suas costas fecharia para sempre as portas de minha casa. Felizmente, senhor, parece-me que não foi ela quem mais concorreu para a separação que lastimo.
— Toda a responsabilidade deste deplorável acontecimento me pertence. Minha mulher foi mártir das minhas loucuras. Quero pedir-lhe que me perdoe, e que venha d’ora em diante proporcionar-me a felicidade, a que eu não soube dar o devido valor.
— Neste particular, senhor, tudo correrá por sua conta.
— Mas V.S. há de auxiliar-me na extinção do escândalo e da desgraça que há três anos trazem apartados de mim dois entes que hoje constituem a minha única riqueza.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.