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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Lourenço estava hediondo. Os cabelos tinha-os imundos e crescidos, as unhas terrosas, os pés cortados das pedras e dos vidros dos quintais e esterquilínios por onde de noite andava em busca do alheio.

Sobre o corpo, que sendo de cor branca, se apresentava enegrecido do pó e das imundices em que se espojava, como cão, e sobre as quais dormia como porco, trazia, não roupa, mas pútridos e repugnantes andrajos.

- Onde achou você este menino? perguntou-lhe Marcelina, não sem espanto do que via e não esperava.

- Achei-o por ai além; não precisa saber onde. Toma-o á tua conta, limpa-o, trata dele.

Não tem pai nem mãe? Poderemos te-lo por nosso, sem risco de o perdermos ou de que alguém o venha tirar de nosso poder quando já estiver não como bicho, mas como gente?

- Não tenhas receio de que haja quem o queira, Marcelina. Todo o Pasmado entregou-mo para ficar aliviado e livre dele. Tu não sabes de quanto é capaz este menino endiabrado que nos está ouvindo sem dizer uma palavra sequer, passado de raiva e em termos de arrebentar. Enfim, para encurtar a historia, basta que eu te diga que pelo que me fez em tão curta jornada, tive muitos ímpetos de o ir deixar outra vez no lugar onde o encontrei aborrecido e temido por todos. Não foi uma nem duas vezes que me arrependi da minha caridade e de me terem lembrado as tuas encomendações sempre que eu saia.

- Não diga assim, Francisco. Ele há de ficar bondinho, com o favor de Deus. Você há de ver. Não há tanta gente que nasce ruim e que pelo tempo adiante fica boa?

- Enfim, ai o tens. Foi o menino que encontrei, e agora agüenta-te com ele, que tem sangue no olho e cabelo na venta.

Dias depois, Lourenço já apresentava aspecto diferente do que trouxera. Marcelina tinha feito para ele ceroula e camisa nova, e principiou a sua obra de regeneração pela limpa do corpo.

Á tardinha, entrando Francisco com o feixe de capim que fora cortar na baixa para o cavalo, ficou admirado de ver a mudança de Lourenço.

A limpa corporal tinha sido completa.

Desapareceu o cabelo sórdido e especado, que fora cortado rente, as rajás que desfiguravam a cara, as unhas que se podiam comparar com as garras dos carcarás. Lourenço mostrava-se agora na realidade outro do que viera. O banho geral que lhe foi dado por Marcelina o poz ao natural. A cara despojada da crosta terrena em que se envolvia, como em mascara, atestava pela brancura que o menino era de boa origem. Os vasos azuis desenhavam-se sob a cútis das faces, murchadas pouco antes, agora porém refrescadas pela ablução saudável, e como remoçadas pela pronta reação que é natural da meninice.

Conheceu-se então que o menino não era feio. Tinha a fronte espaçosa, os olhos rasgados e negros mas de desvairado brilho, efeito das insônias que curtia; aquilino o nariz; bem proporcionada a boca; fendido o queixo. Lia-selhe porém no semblante móvel e no olhar sorrateiro, sem deixar de ser observador, a desconfiança, que é uma das manifestações naturais de quem se afez a obrar ações reprovadas, a cuja pratica se não animaria, se lhe não fossem propícios os esconderijos, as trevas, os ermos, que prometem a impunidade e quase a asseguram.

Mas Lourenço, posto que de todo solto desde os primeiros anos, não tinha certos vícios que rebaixam nas cidades populosas a infância entregue a seu próprio e único alvedrio e direção. Ele era de índole mau, e cedendo ás impreteríveis e fatais leis do instinto, fora arrastado inumeráveis vezes a cometer atos reprovados. Ignorante, porém, das vilezas que os meninos aprendem nos colégios mal administrados, e que das mais puras e inocentes almas fazem pacientes e propagadores do enredo, da mentira e de vergonhosos prazeres que desnaturam as mais fortes e viris organizações, ele guardava ainda no coração intactos e como adormecidos os estímulos próprios do homem, que ainda metido no charco das paixões, não lhes bebe a lama como a dos charcos bebem os animais.

(continua...)

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