Por Bernardo Guimarães (1872)
De noite, quando sonhava com ela — e isto sempre lhe acontecia -, despertava benzendo-se, punha-se de joelhos e rezava longamente pedindo a Deus que lhe arredasse do espírito aquela tentação, que até dormindo tanto o perturbava.
Mas debalde Eugênio cerrava os olhos e os ouvidos, debalde procurava furtar-se à influência dessas impressões externas, que lhe falavam de Margarida. De que lhe servia isso, se ele a tinha dentro de si, e não lhe era possível estender um véu que a ocultasse aos olhos da alma, dentro da qual encontrava sempre a sorrir, refulgente de formosura, a imagem de Margarida, como lâmpada sempre acesa dentro de um santuário, e ouvia-lhe constantemente a voz como um eco mavioso, que a viração que passa acorda de contínuo no seio de uma gruta misteriosa.
Era tempo perdido querer riscá-la da lembrança. A encantadora menina cada vez mais louçã e risonha, cada vez mais tentadora, estava sempre a lhe aparecer em sonhos, como um anjo de luz procurando à porfia desvanecer e afugentar as sombras tristonhas que os escrúpulos de uma consciência fanatizada começavam a acumular no espírito do adolescente.
Eugênio cumpriu à risca os jejuns e penitências que lhe foram prescritos durante uma semana, no fim da qual devia prosternar-se no tribunal da penitência aos pés do confessor, e aliviar sua consciência do peso daquele hediondo pecado, o qual entretanto fazia as delícias de sua vida. E quem escolheria ele para seu confessor senão o próprio padre-mestre diretor, que já estava ao fato das fraquezas de seu coração, e das alucinações de sua imaginação?
O menino confessou-se com verdadeira contrição e sinceros desejos de emendar-se, revelando toda a luta íntima que sustentava sem resultado para banir do espírito a imagem da sua querida Margarida.
O padre deu-lhe animações e conselhos salutares, exortando-o a que persistisse naquela luta agradável aos olhos de Deus, e que tivesse fé e esperança na misericórdia divina, que alcançaria segura e completa vitória. Entre outras muitas coisas santas e salutares que disse ao menino, fez-lhe ver que decerto Margarida, como criança que era, já há muito dele se teria esquecido, e que não era senão o demônio que tomava a figura dessa menina para perturbar-lhe o espírito, arredá-lo de uma santa vocação, e arrastá-lo ao caminho da condenação eterna; que se lembrasse que o espírito das trevas, querendo perder nossos primeiros pais transformou-se em uma serpente, que enleando-se submissa e dolosa aos pés de Eva, lançou-lhe n'alma o germe da desobediência e da cobiça, o que fez perderem para sempre, ela e o seu companheiro, as delícias do paraíso terreal.
Como remédio prático para combater a tentação, recomendou-lhe que se desse a trabalhos incessantes do corpo e do espírito; exercício ativo e violento mesmo nas horas de recreio, lição dobrada a estudar na ocasião do repouso, e sobretudo orações, penitências e mortificações durante a noite.
O estudante ouvia com a maior atenção, e recolhia no fundo da alma todos os conselhos e exortações do padre, dispondo a pô-los em prática imediatamente. De todas as coisas, porém, que disse o padre, a que mais profunda mossa deixou em seu espírito foi a alusão da serpente no paraíso. Lembrou-se da cobra que se tinha enleado ao corpo de Margarida, quando era pequenina, das palavras que então sua mãe proferiu com respeito à serpente que tentou Eva no paraíso, e estremeceu.
Havia ali uma terrível analogia de situações, que ele sentia confusamente; as sinistras apreensões da mãe pareciam tender a realizar-se; um terror vago se apoderou da alma de Eugênio.
O estudante seguiu à risca todas as exortações e conselhos do padre. Na ocasião do recreio corria, saltava, lutava, jogava a bola e a peteca, sem dar um instante de repouso ao corpo.
Nas horas de repouso estudava a morrer, e quando já não tinha lição a estudar pegava em qualquer livro pio, e lia, lia incessantemente. Quando vinha a noite, achava-se fatigadíssimo, mas em vez de entregar-se ao descanso que a natureza reclamava, conservava acesa a sua lâmpada até horas mortas da noite, rezando ou estudando, e quando a apagava ficava ainda ajoelhado e de braços abertos sobre o leito, até que um sono irresistível o viesse prostrar.
No fim de algum tempo, Eugênio estava magro, pálido, alquebrado, que mais parecia uma múmia ambulante. Tinha-se de todo amortecido o brilho de seus grandes olhos azuis, e profunda palidez cobria-lhe o rosto magro. O adolescente de dezesseis anos parecia um ancião às bordas da sepultura.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.