Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

As vastas e profundas selvas, no seio das quais corre ruidoso e turbulento o ribeirão da Bagagem, tinham tombado aos golpes do machado, deixando descortinada uma larga zona em uma e outra margem. No meio dos destroços da floresta viam-se dispersas em desordem as frágeis e provisórias habitações dos garimpeiros, cobertas das compridas palmas do coqueiro baguaçu. Por aquele terreno branco e selvático, onde só se esperaria encontrar o tosco sertanejo, ou o africano semi- nu, girava uma população polida e bem trajada, composta de pessoas de todas as procedências, que de remotas paragens acudiam a explorar o novo descoberto, cuja fama se espalhava muito ao longe, e ali reinava movimentação e animação como em uma grande praça comercial.

Enquanto a alavanca e o almocafre retiniam pelas grupiaras extraindo o cascalho precioso, os golpes do machado reboavam pelas florestas e de espaço a espaço um baque, estrugindo ao longo das costas, anunciava a queda de mais um tronco robusto e secular. O ronco das catadupas servia como de acompanhamento às cantigas e algazarras dos garimpeiros, que ao longo da beira do rio lavavam alegremente o esperançoso cascalho.

Era uma tarde de novembro, pura, calma e cheia de esplendores. Já todos abandonavam o trabalho, patrões e trabalhadores, e se recolhiam a seus ranchos. Começava a acalmar-se o rumor e agitação do dia, e ouvia-se já a voz do sertanejo, que assentado à porta do rancho entoava ao som da viola seus toscos cantares, cujas notas prolongadas e melancólicas iam escoando ao longe pelas ribanceiras.

Um moço de alta estatura, de olhos e barbas negras, com os braços cruzados, e o chapéu de lebre enterrado nos olhos, estava em pé junto à margem do rio, encostado a um rochedo, inspecionando com ar sombrio e preocupado o serviço de três ou quatro trabalhadores, que lavavam as últimas bateadas.

- Então, Simão? Nada ainda? - disse ele a um velho camarada, que acabava de deitar fora o cascalho de uma bateada.

- Nada por ora, meu patrão- respondeu o camarada- isto aqui não pinta; amanhã havemos de abrir outra grupiara ali mais embaixo. . .

- Entretanto, tu bem vês: há aqui as melhores formações: ferragem, olho- de- pomba, palha- de- arroz, cativo, nada falta; e entretanto há mais de dois meses que aqui estamos trabalhando e nos devemos dar por felizes se o serviço tem dado para salvar a metade das despesas. O diabo que as leve as tais formações ou informações; não as entendo; isto é uma burla. Acho que se fossemos plantar batatas faríamos melhor negócio. Anda, Simão; quebra essas bateias, atira ao rio esses almocafres, e vamo- nos embora para nosso país. É escusado andar procurando no seio da terra o que lá não guardamos.

-tenha paciência, meu patrão- respondeu o camarada. - Dê- nos ainda um pequeno serviço amanhã. . . ali, ali mais embaixo, patrão, e eu que não me chame Simão, se a coisa ali não pintar. Tenha fé e reza a Nossa Senhora, e verá se amanhã ou depois o diamante graúdo não vem aluminar no fundo da bateia.

- Histórias! Meu Simão; todos os dias me dizes isso e o resultado é sempre o que estamos vendo.

-mais dois dias só, patrão; e eu que seja enforcado, se não acharmos coisa que sirva.

- Não creias nisso, Simão; a sorte me persegue; tenho de ser pobre e desgraçado toda a minha vida-murmurou o moço no tom do mais profundo desalento.

- Não desanime assim, patrão; não se lembra mais da cigana, que leu a sua sina, e disse que a sua estrela é de pedra. . .

- Sim, e é de pedra mesmo, ou mais dura do que pedra. O diabo leve quanta cigana há neste mundo, e todas as suas predições.

Nisto os trabalhadores puseram tristemente os seus almocafres ao ombro, pegaram em suas bateias, e se retiraram. Elias e Simão ficaram ainda.

Simão era um velho e magro, mas robusto e bem constituído, de cor bronzeada, e que parecia ser de raça mista de índio e africano. Desde menino fora camarada do pai de Elias, ao qual sempre servira com a maior dedicação e lealdade. O pai de Elias também o estimava e queria como a um verdadeiro amigo, e tendo falecido há quatro ou cinco anos sem poder deixar àquele seu único filho outra herança mais do que uma excelente educação, que infelizmente não pôde concluir, em seus últimos momentos rogou ao velho caboclo, que acompanhasse sempre, que nunca abandonasse a seu filho, que ficava com 17 a 18 anos de idade.

Não era preciso que o velho o rogasse; Simão nunca abandonaria o jovem patrão, a quem na infância carregara nos braços e a quem votava afeição de pai.

Simão era garimpeiro mestre, muito conhecedor de terrenos diamantinos, de que tinha adquirido grande prática na Diamantina, de onde seu defunto patrão e ele mesmo eram naturais, e onde tinham residido nos primeiros tempos de sua vida.

Simão era verdadeiramente um habilíssimo garimpeiro, e parecia que farejava o diamante; mas, infelizmente para o seu jovem amo, para quem somente trabalhava, e para quem desejaria descobrir um tesouro, a sua grande habilidade tinha ficado sempre em falta, o que sumamente o afligia; mas nem assim desesperava.

- É aqui mesmo na Bagagem, meu amo, dizia-lhe ele às vezes, é neste chão mesmo que está enterrada a sua estrela de pedra.

Quando Elias foi para o Patrocínio correr cavalhadas, Simão que vinha com ele, quis ficar na Bagagem.

- Já que estou aqui, patrão, vou ver se acho a sua estrela de pedra. Também o patrão não vai para longe; se precisar de mim, é um pulo. Compre um pedacinho de grupiara, e deixe-me trabalhar,

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1112131415...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →