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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Roberto andava inteiramente estomagado com sua formosa prima; mas não ousava queixar-se, nem dizer-lhe nada. Não deprimia mais o muladeiro, e nem se atrevia a tocar na desastrada caçada de onça, que era o seu eterno pesadelo; tinha medo de alguma estralada pior do que a que já houvera, e que a fizesse romper inteiramente com ele. Assim, pois, assentou de mudar de estratégia, e como tinha ouvido dizer que o desdém é o melhor meio de atrair a afeição das moças, esforçou-se por aparentar o maior pouco caso do mundo para com a linda prima; fingiu-se curado da paixão que por ela tinha; quando acontecia falar com Paulina ou olhar para ela era com um ar da maior indiferença e para afastar toda a idéia de arrufos e ciúmes, era ele mesmo, quem convidava a prima para irem conversar ao quarto de Eduardo. Ali tagarelava ele a torto e a direito soltando o dique de uma torrente de parvoíces sem conta; falava em namoradas que dizia ter, fingia saudades de uma, exaltava a beleza e as qualidades de outra, contava os riscos e vantajosos casamentos que tinha à sua disposição, esforçando-se por afetar o tom o mais descuidoso e despreocupado do mundo. Todas essas frioleiras introduzia na conversação, viessem ou não a propósito, porém com ar tão aparvalhado e com tal desazo, que bem se estava vendo que tudo aquilo não passava de um expediente muito cediço, de que lançava mão a ver se picava o amor-próprio de Paulina, e se com o seu desdém ela se mostrava ofendida. Foi tempo e trabalho perdido. Paulina bem pouca atenção lhe prestava, e Eduardo sorria-se interiormente de tantas parvoíces e impertinências.

Vendo com o maior desgosto que nenhum lucro tirava de semelhante estratégia, Roberto mudou as guardas, e tratou de ensaiar o sistema contrário. Começou a rodear Paulina de tantos cuidados e atenções, a dirigir-lhe tais lisonjas e galanteios, que além de ridículo o tornavam soberanamente importuno. Todas as vezes, que Paulina aparecia na sala, na varanda, no jardim, lá surgia pela frente o primo, endereçando-lhe finezas as mais cediças, cumprimentos os mais grotescos, que fariam rir Paulina, se não tivesse o espírito tão preocupado, o coração tão cheio de cuidados e inquietações.

– Ah! prima da minha alma! não faz idéia como está bonita!... esta prima é um peixão!... é mesmo um sol!...

Outras vezes tornava-se todo solícito pela sua saúde. – Bons dias, prima; – amanheceu hoje tão amarelinha!... coitada!... parece uma defuntinha! mas sempre bonita assim mesmo; bonita como ninguém!... é tal qual uma santinha de cera!... eu já vi uma Nossa Senhora de gesso, que era essa sua carinha sem tirar nem pôr... é preciso a prima dar um passeio lá em casa... suas primas estão com uma saudade da senhora! também há de ser bom para seu incômodo; a mana Mariquinha também costuma sofrer disso e dá-se bem com o passeio.

Outras vezes saía com uma espingarda pelo mato, e fazia as maiores diligências para trazer à prima uma caça delicada, um jaó, uma paca, uma perdiz.

A prima anda com tanto fastio! talvez esta caça lhe faça abrir a vontade de comer; mande a Susana prepará-la bem feita para o seu jantar.

Ai! todos aqueles obséquios, todas aquelas finezas eram perdidas. Paulina bem via que Roberto a amava extremosamente; tinha pena dele, e não desejava magoá-lo, ainda que suas contínuas atenções e galanteios não deixassem de importuná-la. E quanto mais crescia o amor que Eduardo lhe inspirara, mais fria, reservada e mesmo triste se mostrava, não de propósito, mas até mesmo a pesar seu, para com o pobre Roberto. Nem por isso deixava de dirigir-lhe algumas palavras de agradecimento, e um sorriso, mas tão frio, tão repassado de melancolia, que não podia fazer desabrochar muita esperança no coração do infeliz rapaz.

Roberto trincava de raiva e desesperava-se por não poder vencer a cruel apatia, em que para com ele se achava o coração de Paulina, e lançava mão de todos os recursos que seu fraco bestunto lhe sugeria. Por fim procurou vencê-la com dádivas e presentes. Uma rica e grossa cadeia de ouro, em que trazia preso o seu relógio, pediu-lhe que aceitasse em penhor de sua amizade, e firmeza. Ofertou-lhe mais uma linda e excelente besta de sela, além de muitos outros mimos delicados e de preço. Dádivas quebrantam penhas, e “a Deus rogando e com la mano dando”, tinha ele talvez ouvido dizer senão ao próprio Sancho Pança, ao menos a algum de seus confrades. Importunada para aceitar, Paulina via-se em torturas para recusar semelhantes donativos de um modo que o não desgostasse. Pobre amante! infeliz pretendente! disputava com admirável ardor e tenacidade a posse de um coração, e como não era repelido terminantemente em termos claros e rudes, em sua simplicidade não compreendia quanto era completa a sua derrota.

(continua...)

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