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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Não pareceu prudente ao médico explicar a D. Felícia o que influíra realmente no ânimo da filha, e evitou de tocar em qualquer particularidade da viuvez do amigo para não assustar a senhora. Atribuiu o espanto e emoção da moça à repugnância que ela mostrara sempre pelo casamento, e de que anteriormente fora informado.

D. Felícia aceitou esta razão, porque não descobria outra; e combinou com Teixeira os meios de destruir aquela prevenção. Deviam começar por estabelecer relações entre os dois apaixonados. A senhora os chamava assim, na convicção em que estava de que Hermano não podia deixar de ter por Amália um amor ainda mais veemente do que soubera inspirar à filha.

O doutor incumbiu-se de apresentar Hermano em casa do Sr. Veiga. Essa tarefa não era tão fácil como parecia: ele tinha de lutar com uma das regras invariáveis a que o amigo submetera a sua existência, desde a viuvez.

Quando não se achava nos seus dias negros, dominado pela obsessão que era talvez uma recaída do letargo causado pela morte da mulher, Hermano freqüentava a sociedade, e concorria aos divertimentos como no seu tempo de casado. Encontrando nos bailes alguma amiga de Julieta dançava com ela e a festejava. Não tinha os sestros do viúvo. Não se enternecia, nem suspirava falando do golpe que sofrera; ao contrário, mostrava um doce regozijo ao avivar recordações de sua felicidade.

Mas também repelia toda inovação.

A sua vida parara no momento em que Julieta morrera, deixando-o só, e portanto mutilando-lhe o ser. O que ele fazia depois disso não era mais viver; e sim reviver o passado, remontar o curso dessa existência dupla, que absorvera sua individualidade.

Não tinha relações nem amizades que não fossem daquele tempo. Se o acaso o punha em contato com outras pessoas, tratava-as sempre como estranhas, e não guardava lembrança desses nomes nem dessas fisionomias desconhecidas.

Não visitava família que não tivesse freqüentado com a mulher.

Henrique portanto contava que o primeiro impulso do amigo seria recusa formal de acompanhá-lo à casa do Sr. Veiga; e cogitava pretextos para induzi-lo e demover-se uma vez da sua inabalável resolução.

Em suas conversas acerca de Hermano, Amália tinha pedido ao doutor que lhe fizesse o retrato de Julieta; e nessa ocasião lhe dissera que outrora, bem menina, a tinha visto muitas vezes, mas não se podia lembrar da fisionomia.

Henrique também não se lembrava senão dos cabelos negros e da alvura da tez; do mais não reparara ele senão na graça que envolvia e luminava toda a pessoa de Julieta. De sorte que Amália nada colheu além do que sabia.

Sobre estas circunstâncias que a moça lhe referira de sua meninice, o médico propôs-se a bordar um conto que despertasse a curiosidade de Hermano. Falou-lhe da vizinha que se lembrava muito de D. Julieta e imaginou entre ambas uma semelhança, que não o podia comprometer na sua opinião. Amália era uma beleza deslumbrante que ofuscava a outra.

Hermano não mostrou o menor desejo de conhecer a moça; e quando Teixeira o convidou para acompanhá-lo à casa do Sr. Veiga, ele respondeu simplesmente:

— Não o conheço.

— Mas ele te visitou quando mudou-se para tua vizinhança. Disse-me a senhora.

— Não sei.

O doutor compreendeu que só havia um meio de arrancar o amigo àquela vida abstrata; era perturbar o seu recolhimento, quebrar os seu hábitos, agitar-lhe o espírito. Antes de fazê-lo, hesitou. Tinha ele certeza de dar felicidade a Hermano? Não seria cruel dissipar-lhe a doce ilusão em que vivia para lançá-lo em uma triste realidade?

Era caso de refletir.

O pavor que produzira em Amália a idéia de casar-se com Hermano deixou em seu espírito uma impressão profunda, que só mais tarde se foi desvanecendo.

A chácara vizinha excitava nela um sentimento de repulsão; desviava os olhos daquela direção; passava os dias fora para fugir a essa vista que a incomodava. Foi para o Andaraí estar uma semana com a tia.

A ausência acalmou a sua agitação. Voltando a casa, D. Felícia acabou de tranqüilizá-la. Disse-lhe que tivera aquela idéia, por desconfiar que Hermano lhe agradava, mas desde que ela rejeitava o partido não devia pensar mais nisso; pois nunca se casaria senão de sua livre vontade e com um homem que escolhesse.

— Mas ele, mamãe, soube de seu desejo? perguntou Amália inquieta.

— Não; foi só lembrança minha. Ele não deu nenhum passo.

— Se nem me conhece!

Esta conversa dissipou o susto da moça. Aquele interesse que ela havia tomado pela constância do viúvo, tornou-se inocente como dantes. Ela podia sem receio, e sem vexame, abandonar-se de novo aos impulsos desse capricho.

Voltou pois à contemplação e devaneio, em que se esquecia a observar os movimentos da habitação vizinha.

(continua...)

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