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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Acabara o Matos de aviar os fregueses, e chegando-se para o balcão, incomodou-se com ver o moço a observar a obra; ia talvez interrompê-lo rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio tão eloqüente em sua mudez; e à contrariedade sucedeu a satisfação do amor-próprio.

Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se do balcão, receando ter sido indiscreto. Ia sair, quando entrou na loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar à portinhola do carro, na Rua do Ouvidor.

— Ah! exclamou o Matos, avistando o criado. Está quase pronto.

— Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolência do rafeiro de casa rica.

— É só embrulhar.

Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e dar o último polimento à sua obra; feito o que arranjou o embrulho.

— Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.

— Não tenha susto; desta vez está bem seguro, respondeu o Matos.

Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, despediuse, arrependido de ter ido à loja. Que saudades tinha da sua dúvida!

— A dúvida, pensava ele, é ainda um raio de esperança!


CAPÍTULO  VII

A esse tempo Horácio, sentado em uma poltrona na casa de Bernardo, fumava o seu conchita, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho fronteiro, à espreita do menor vulto de mulher. O leão pensava:

— Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um pé mimoso e uma perna bonita, não aproveita um destes dias para atravessar a Rua do Ouvidor? Se deixarem escapar estes pretextos de mostrar semelhantes maravilhas, morrerão elas desconhecidas, apenas vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Se a Vênus de Praxíteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua beleza não excitaria em minha alma o menor entusiasmo.

Nessa ocasião Amélia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a cortesia do leão, a quem respondeu com um sorriso amável. Parando na vidraça, achou ela pretexto para entrar, e comprou uma galanteria Durante esse tempo Horácio recebeu por diversas vezes o olhar e o sorriso da moça.

Acompanhando com a vista o passo airoso e sutil de Amélia, Horácio exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:

— Que passo gracioso! É o andar da garça!

Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça ouvisse; um ligeiro estremecimento que se notou na suave ondulação do talhe revelou que o leão lograra seu desejo. A moça ouvira com efeito a fineza.

Recostado de novo na poltrona o leão continuou a pensar:

— Realmente, que elegância no andar! Eu seria capaz de apostar que esse andar era do pezinho, do meu adorado pezinho, se já não tivesse descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse que ao meio-dia, e é quase uma hora!

Terá mudado de resolução?... Não duvido, com aquele zelo feroz que tem por sua jóia, talvez não quisesse vir para não ser obrigada a mostrá-la. Um avaro não fecha com mais cuidado a burra, do que ela esconde seu tesouro. Que pecado! Subtrair ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma nação; assim como há demônios — legiões, por que não pode haver homens-povos? Se o fosse, daria um trono a essa mulher, somente para que ela instituísse o beija-pé.

Como eu seria cortesão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de súdito!

O mancebo sobressaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho fronteiro. Era Laura. Que devia fazer? Correr à porta para ser visto pela moça ou deixar-se ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?

A atitude do leão revelava a hesitação de seu espírito; com o corpo lançado à frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado. Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficara em um estado de perturbação indizível.

— Que tem, prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.

— Nada! balbuciou a moça.

A princípio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se avançou com afoiteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na poltrona, não logrou ver coisa alguma; a senhora arrastava a fímbria do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria se caminhasse sobre rico tapete.

(continua...)

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