Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Filipa — Farei chegar às suas mãos um convite para o baile de máscaras do senhor
Maurício. O senhor procederá de modo que não comprometa minha mãe, e ao arrancar leonina dos braços do seu raptor, provocará com seus gritos o concurso de testemunhas.
Henrique — Fá-lo-ei melhor do que calcula, minha senhora!
Filipa — A vingança aproximou-nos: unir-nos-á a cumplicidade. Adeus, senhor, até a noite do baile!...
Henrique — Até a noite do baile!...
Filipa (Indo-se) — Oh!...agora estou segura. (Vai-se)
Henrique — Baralhaste demais as cartas do vosso jogo, minha senhora! A partida não será vossa, e menos de vossa mãe: a partida será minha! (Vai-se)
CENA VIII
O Comendador Pereira.
Pereira — O senhor Maurício anda mal de fortuna; isso é tão positivo que ainda há quatro dias descontei com dez por cento esta letra de três contos réis, assinada por ele; não é boa firma, não; mas tem uma filha que vale cem contos com os olhos fechados. Nada tenho com as dívidas do pai; o que eu quero é a filha, e há de ser minha. Segundo ouvi há pouco, ela vem esperar aqui Dona Hortênsia, e eu não hei de perder este ensejo. Vou oferecer-lhe a decantada rosa (Tira-a do seio); mas há de ser uma fineza toda especial. Dona Fabiana assegura que a menina é muito interesseira; pois então, apresentar-lhe-ei a rosa em um cartuchinho feito com a letra de três contos de réis.(Prepara o cartucho). Aposto que o cartucho produzirá mais efeito do que a rosa? Dona Leonina não terá de envergonhar-se, porque o presente será recebido em particular, e, além disso, não posso admitir que o dinheiro envergonhe a pessoa alguma. Ei-la aí.
CENA IX
O Comendador Pereira e Leonina.
Leonina — Esperava encontrar aqui minha mãe.
Pereira — E eu dou-me os parabéns por não ter ainda chegado a senhora Dona Hortênsia; desejava achar-me a sós com Vossa Excelência para testemunhar-lhe o meu profundo afeto, oferecendo-lhe a palma da beleza. (Apresenta a rosa no cartucho).
Leonina (Recebendo) — Oh! a rosa!... (Deita fora o cartucho).
Pereira — Não deite fora o cartucho!...não deite fora o cartucho!...
Leonina — Mas que tem de singular este cartucho?...
Pereira (Apanhando-o e oferecendo-o de novo) — Minha senhora, é que há cartucho e cartucho!...
Leonina (Recebendo e à parte) — Querem ver que é um bilhetinho amoroso?...
(Abre) Oh!!!
Pereira — Perdoe-me Vossa Excelência... é um simples sinal...
Leonina — Senhor! Há dois insultos neste indigno papel! Há dois insultos, porque o senhor fez-me corar por meu pai, e porque ousou fazer-me um presente de dinheiro! Há dois insultos...ou não há insulto algum, porque Vossa Senhoria, senhor comendador, não compreende quanto respeito se deve a uma senhora. Eis aí o seu papel!...Ei-lo...vê bem que o não posso rasgar; é uma dívida de meu pai.
Pereira — Minha senhora...por quem é...
Leonina — Eis aí a sua letra! Está me queimando os dedos: ei-la aí! E pois que não a vem receber, apanhe-a no chão. (Atira a letra ao chão e volta as costas).
Pereira — Perdão, minha senhora, eu sou um bruto. (Apanha a letra).
CENA X
Pereira, Leonina e Hortênsia.
Hortênsia — Oh! a rosa!...a palma da beleza na mão de Leonina!...
Leonina — A rosa?... é verdade...nem dela me lembrava!...(Desfolha a rosa).
Hortênsia — Que fazes, minha filha?
Leonina — Oh! minha mãe! Esta rosa tinha espinhos: feriu-me!
FIM DO SEGUNDO ATO
ATO III
Sala interior em casa de Maurício; sempre o mesmo luxo e elegância; mesa pequena, mas de rico trabalho, à direita e um pouco ao fundo. Portas laterais e ao fundo.
CENA I
Hortênsia e Maurício, tendo na mão um livro que logo depois vai colocar sobre a mesa.
Maurício — Não, Hortênsia, as ilusões desapareceram; a hora da desgraça vai soar para nós; já dissipamos toda a nossa fortuna, e legaremos a Leonina a mais horrível miséria.
Hortênsia — Ora,
que andas sempre a sonhar futuros pavorosos!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.