Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
PESTANA – O Despacha? ... está dormindo ali (Mostra) e agora que venha o mundo abaixo, não se acorda.
MENDES – Disso desconfiava eu; conheço-lhe o costume, e tanto que trazia-lhe uma carta para deixar em mão segura.
PESTANA – Quer que lha entregue?...
MENDES – Se me faz favor... (Entrega-lhe a carta).
Cena V
Mendes, Pestana, mulheres e homens que vão chegando, Inês com o hábito de frade.
PESTANA (A Mendes) – Aí vem a súcia de parentes dos recrutas (Volta-se) Temos gritaria?
INÊS —Vamos, meu padrinho...
MENDES – Oh! esta é de frade!... (Alto) Reverendíssimo, eu desejo acompanhálo... Sr. sargento, até logo...
PESTANA – Sua bênção, reverendíssimo! (Inês deita-lhe a bênção e vai-se com Mendes) Foi pro formula: não creio em semelhante fradeco.
Cena VI
Pestana, homens e mulheres, depois Benjamim de calções e em mangas de camisa.
UMA MULHER – Quero ver meu filho!
UM VELHO – Quero ver meu neto.
UMA VELHA – Quero ver meu sobrinho.
VOZES (Ao mesmo tempo) – Meu filho, meu neto, meu sobrinho!...
PESTANA – Hoje só depois do meio-dia poderão falar aos recrutas: retirem-se!...
TODOS (Cantam) – É um prender danado
Para soldado!
O povo está sem lei!
E um governo mau
Que leva tudo a pau
O do vice-rei,
PESTANA – Oh, cambada! e quem há de fazer a guerra? (Sussurro: Pestana gesticula no meio da gente).
BENJAMIM (Saindo da sala da tarimba) – A bela Inês foi-se com o padrinho...
agora estou em talas... eu podia meter-me entre aquela gente; mas de calções e em mangas de camisa não fujo: (Abrindo portas e olhando) xadrez... safa... (Olhando para um quarto) Oh!... (Vai à sentinela) Camarada, quem dorme rocando ali?
SENTINELA – É o Despacha, o velho cirurgião do regimento.
BENJAMIM – E está ainda mais a fresca do que eu...
SENTINELA – E seu costume: mas quem é você?...
BENJAMIM – Vim ver meu irmão que foi recrutado; agora estava admirando como aquele homem ronca (Afasta-se e disfarça) ora... quem não se arrisca não ganha (Entra no quarto).
CORO
— Quem é moço, é recruta;
Sanha bruta
O vice-rei devora
Governo do diabo!
Que dele dêem cabo
Em boa hora!
(Antes de acabar o coro Benjamim sai do quarto com a farda, cabeleira branca, chapéu etc., do cirurgião e vai-se.)
Cena VII
Pestana, homens e mulheres, Pina e logo depois Paula.
PINA – Que motim é este? ... soldados! ponham fora essa gentalha! prendam os que não quiserem sair (Movimento de soldados: a gente vai saindo a empurrões de coice de armas, etc.)
CORO DA GENTE QUE SAI
A’ el-rei! á el-rei!
A queixa do povo Paula
Contra o vice-rei
Não é caso novo (Vão-se. Os soldados saem)
PINA (À parte) – O descontentamento do povo aumenta... o conde da Cunha devia tornar-se mais brando...
PAULA – Não encontrei o Peres nem na casa de negócio, nem no trapiche...
PINA – Pois ei-lo aí: tanto melhor...
Cena VIII
Pestana, Pina, Paula, Peres; logo Fr. Simão, uma cadeirinha e carregadores que esperam.
PERES (Muito grave.) – Trago uma ordem do senhor vice-rei (Entrega a ordem).
PINA (Abre e lê) – Em poucos minutos farei dar baixa e lhe entregarei o recruta que com o nome de Benjamim... perdão! Sargento Pestana!
PESTANA – Pronto.
PINA – O recruta que te confiei: imediatamente...
PESTANA (À parte) – E esta?... não me esqueci!... que estará fazendo ainda na arrecadação?... (Vai-se).
PINA (Baixo a Peres) – O Sr. Peres esteja certo que, adivinhando um segredo... fiz observar aqui o mais profundo respeito... (Pestana sai da arrecadação e aflito corre o quartel).
PERES —Obrigado.
FR. SIMÃO (Cumprimenta) – Vim rogar que me seja entregue o noviço que nos fugiu do convento..
PESTANA (Trêmulo.) – O recruta... desertou...
PINA – Que!...
PERES – Fugiu?
FR. SIMÃO – E o noviço?
PESTANA – Esse foi-se logo...
PINA – Chamada geral!... (Pestana corre para o quartel) Sr. Peres, hoje mesmo será plenamente cumprida a ordem do senhor vice-rei (A Paula) Alferes, siga com soldados de escolha... quero preso o desertor!... (Toque de chamada geral, os soldados formam-se:
movimento).
FR. SIMÃO – E o noviço?... (Continua o toque e o movimento).
PINA – Ora, reverendíssimo!... que tenho eu com o noviço? mande uma escolta de frades atrás dele!... (Fr. Simão benze-se).
PANTALEÃO (Pondo a cabeça muito calva fora da porta) – Capitão! não posso acudir à chamada, porque me furtaram todo o fardamento e a cabeleira!...
PINA – Sr. alferes Paula, escolha a escolta e siga (Paula obedece) Sargento Pestana!
PESTANA – Pronto!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.