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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Depois que este Estado se descobriu por ordem dos reis passados, se trabalhou muito por se acabar de descobrir este rio por todo o gentio que nele viveu, e por ele andou afirmar que pelo seu sertão havia serras de ouro e prata, à conta da qual informação se fizeram muitas entradas de todas as capitanias sem poder ninguém chegar ao cabo; com este desengano e sobre esta pretensão veio Duarte Coelho a Portugal da sua capitania de Pernambuco a primeira vez, e da segunda também teve desenho; mas descon-certou-se com S. A. pelo não fartar das honras que pedia. E sendo governador deste Estado Luís de Brito de Almeida, mandou entrar por este rio acima a um Bastião Álvares, que se dizia do Porto Seguro, o qual trabalhou por descobrir quanto pôde, no que gastou quatro anos e um grande pedaço da Fazenda d'el Rei, sem poder chegar ao sumidouro, e por derradeiro veio acabar com quinze ou vinte homens entre o gentio tupinambá, a cujas mãos foram mortos, o que lhe aconteceu por não ter cabedal da gente para se fazer temer, e por querer fazer esta jornada contra água, o que não aconteceu a João Coelho de Sousa, por que chegou acima do sumidouro mais de cem léguas, como se verá do roteiro que se fez da sua jornada. À boca da barra deste rio corta o salgado a terra da banda do sudoeste, e faz ficar aquela ponta de areia e mato em ilha, que será de três léguas de comprido. E quando este rio enche com água do monte, não entra o salgado com a maré por ele acima, mas até a barra é água doce, e traz neste tempo grande correnteza.

C A P Í T U L O XXI

Em que se declara a costa do rio de São Francisco até o de Sergipe.

Do rio de São Francisco ao de Guaratiba são duas léguas, no qual entram barcos da costa e tem este rio na boca uma ilha, que é a que vem da ponta da barra do rio de São Francisco; este rio se navega pela terra adentro três léguas, e faz um braço na entrada junto do arrecife, por onde entra o salgado até entrar no rio de São Francisco uma légua da barra, por onde vão os barcos de um rio ao outro, o qual braço faz a ilha declarada. Do rio de Guaratiba a sete léguas está um riacho a que chamam de Aguaboa, pelo ela ser, o qual, como chega perto do salgado, faz uma volta ao longo dele, fazendo uma língua de terra estreita entre ele e o mar, de uma légua de comprido, e no cabo desta légua se mete o mar; entre um rio e outro é tudo praia de areia, onde se chama a enseada de Vazabarris, a qual tem diante de si tudo arrecifes de pedra, com alguns boqueirões para barcos pequenos, por onde podem entrar com bonança. Desse riacho de Aguaboa a uma légua está o rio de Ubirapatiba, por cuja barra podem entrar barcos e caravelões da costa com a proa ao lés-noroeste. A este rio vem o gentio tupinambá mariscar, por achar por aqueles arrecifes muitos polvos, lagostins e caranguejos; e a pescar à linha, onde matam muito peixe, o qual se navega pela terra adentro mais de três léguas. Deste rio Ubirapatiba a sete léguas está o rio de Seregipe em altura de onze graus e dois terços, por cuja barra com batéis diante costumavam entrar os franceses com suas naus do porte de cem tonéis para baixo, mas não tomavam dentro mais que meia carga, e fora da barra acabavam de carregar com suas lanchas, em que acabavam de acarretar o pau que ali resgatavam com os tupinambás, onde também resgatavam com os mesmos algodão e pimenta da terra. Tem este rio duas léguas por ele acima a terra fraca, mas daí avante é muito boa para se poder povoar, onde convém muito que se faça uma povoação, assim para atalhar que não entrem ali franceses, como por segurar aquela costa do gentio que vive por este rio acima, o qual todos os anos faz muito dano, assim nos barcos que entram nela e no Rio Real no inverno com tempo, como em homens, que cometem este caminho para Pernambuco, fugindo, à justiça e nos que pelo mesmo respeito fogem de Pernambuco para a Bahia, os quais de maravilha escapam que os não matem e comam. Tem este rio de Seregipe na barra de baixamar três braças, e dentro cinco e seis braças, cuja barra se entra lés-sueste e oés-noroeste, e quem quer entrar pelo boqueirão do baixio vai com a proa ao norte; e como está dentro a loésnoroeste, vai demandar a ponta do sul, e dela para dentro se vai ao norte; e quem vem do mar em fora verá por cima deste rio um monte mais alto que os outros, da feição de um ovo, que está afastado da barra algumas seis léguas, pelo qual é a terra bem conhecida. A este monte chamam os índios Manhana, que quer dizer entre eles "espia", por se ver de todas as partes de muito longe. E corre-se a costa deste rio ao de São Francisco nor-nordeste e su-sudoeste.

C A P Í T U L O XXII

Em que se declara a costa do rio de Sergipe até o rio Real.

Deste rio de Sergipe de que acima dissemos, a quatro léguas está outro rio, que se diz de Cotegipe, cuja bôca é de meia légua, no meio da qual tem uma ilha em que tem umas moitas verdes, a qual ilha faz duas barras a este rio; pela do sul podem entrar navios de oitenta tonéis, porque no mais debaixo tem de fundo duas braças de baixamar, e mais para dentro tem cinco braças; pela barra do norte entram caravelões da costa. Tem este rio à boca da barra uns bancos de areia que botam meia légua ao mar. Por este rio se navega três léguas, que tantas entra a maré por ele acima, o qual é muito farto de peixe e marisco, cuja terra é sofrível para se poder povoar e no sertão dela tem grandes matas de paubrasil.

Deste rio de Cotegipe ao rio de Pereira, a que outros chamam de Canafístula, são quatro léguas. Do qual até Sergipe faz a terra outra enseada, a que também chamam de Vazabarris, no seio da qual está o rio Cotegipe, de que já falamos, a que muitos chamam do nome de enseada. Do rio de Pereira a duas léguas está a ponta do rio Real, donde se corre a costa até Sergipe nor-nordeste su-sudoeste.

C A P Í T U L O XXIII

Que trata do rio Real e seus merecimentos.

(continua...)

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