Por Padre Antônio Vieira (1652)
Duas condições concorriam em Cristo neste caso para se compadecer e usar de misericórdia com aquela pobre mulher. A primeira e universal, o ser isento de pecado, verificando-se só nele o Qui sine peccato est. A segunda e porticular, o estar naquela ocasião tentado pelos homens: Tentantes eum. Como tentado, não podia deixar de se compadecer; como isento de pecado, não podia deixar de perdoar. A tentação o fazia compassivo, e a isenção de pecado misericordioso. Tudo disse admiravelmente S. Paulo falando de Cristo: Non enim habemus pontificem, qui non possit compati infirmitatibus nostris, tentatum per omn ia pro similitudine, obsque peccato: adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae, ut misericordiam cansequamura.38 Notai todas as palavras, e porticularmente aquelas: tentatum e absque peccato. Como tentado: tentatum, não podia deixar de se compadecer: Qui non possit compati. Como isento de pecado: obsque peccato, não podia deixar de ser misericordioso: Adeamus ergo cumfiducia, ut misericordiam conse quamur. Na verdade, neste ergo de S. Paulo esteve toda a confiança da delinqüente, e por isso não quis fugir, como se interpretara a sentença de Cristo e dissera: Se só me há de atirar as pedras quem não tem pecado, ninguém mas há de atirar. Os fariseus, que têm pecado, não, porque têm pecado; Cristo, que não tem pecado, também não, porque o não tem. Quem não tem pecado, não atira pedras. – Assim foi, e assim lho disse Cristo; Nemo te condemnavit, mulier? Neque ego te condemnabo (Jo. 8,11): Se ninguém te condenou, nem eu te condenarei. – Eles não te condenaram, porque tinham pecado; eu não te condenarei, porque o não tenho. Eis aqui por que este Homem é tão diferente de todos os outros homens. Os homens que tinham pecado, tentavam, acusavam, perseguiam; o Homem que não tinha pecado, escusou, defendeu, compadeceu-se, perdoou, livrou, e de tal modo condenou o pecado, que absolveu a pecadora: Vade, et noli amplius peccare.
Senhores meus, conclusão. Pois que os homens são piores tentadores que o demônio, guardemo-nos dos homens; e pois que entre todos os homens não há outro homem, de quem seguramente nos possamos fiar, senão este Homem, que juntamente é Deus, tratemos só deste Homem, e tratemos muito familiarmente com este Homem. Toda a fortuna daquela tão desgraciada criatura, esteve em a trazerem diante de tal Homem; e a primeira mercê que lhe fez, foi livrá-la dos outros homens. Por que cuidais que fez Deus homem? Não só para remir os homens, senão para que os homens tivessem um Homem de quem se pudessem fiar, a quem pudessem acudir; e com quem pudessem tratar sem receio, sem cautela, com segurança. Só neste Homem se acha a verdadeira amizade, só neste Homem se acha o verdadeiro remédio. E nós a buscar homens, a comprar homens, a pôr a confiança em homens! Maledictus homo qui confidit in homine (Jer. 7, 5): Maldito o homem que confia em homem, – e bendito o homem que confia neste Homem, e só neste Homem, e muito só por só com este Homem, trata do que lhe convém. Levai este ponto para casa, e não quero outro fruto do sermão.
Depois que se aportaram aqueles maus homens (que bastava serem homens, ainda que não fossem maus) diz o evangelista que ficou só Cristo, e diante dele a venturosa pecadora: Remansit Jesus solus, et mulier in medio stans (Jo. 8,9). Esta foi a maior ventura daquela alma, e esta a melhor hora daquele dia: aquele breve tempo, em que esteve só por só com Cristo. Neste breve tempo, remediou o passado mais o futuro. O passado: Neque ego te condemnabo; o futuro: Noli amplius peccare.39 Já que os homens nos levam tanta porte do dia, tomemos todos os dias, sequer um breve espaço, em que a nossa alma se recolha com Deus e consigo, e esteja só por só com Cristo, com este Homem. Oh! se o fizéramos assim, quão verdadeiramente nos convertêramos a ele!
Chegado Cristo à fonte de Sicar, mandou todos os apóstolos que fossem à cidade buscar de comer, porque era, diz o evangelista, a hora do meio-dia (Jo. 4, 7). Veio neste tempo a samaritana, converteu-a o Senhor, e tornando os apóstolos, e pondo-lhe diante o que traziam, não quis comer. Duas grandes dúvidas tem este lugar. Primeira, por que mandou Cristo à cidade os apóstolos todos, sendo que para trazer de comer, bastava um ou dois? Segunda: se os mandou buscar de comer, e o traziam, e lho ofereceram, e era meiodia, por que não comeu? Primeiramente não comeu, porque já tinha comido. Assim o suspeitaram os discípulos, dizendo entre si: Nunquid aliquis attulit ei manducare?40 Mas não entenderam que quem tinha trazido de comer, era a mesma samaritana. Aquela alma convertida foi para Cristo não só a mais regalada iguaria, mas o melhor e o mais esplêndido banquete que lhe podia dar o céu, quanto mais a terra. Tal foi o que também hoje lhe deu, na conversão desta pecadora. Notai. Quando Cristo venceu no deserto as tentações do demônio, banqueteou o céu a Cristo vencedor com iguarias da terra; porém hoje, como as tentações foram maiores, e maiores os tentadores, e a vitória maior, foi também maior e melhor o banquete. Lá, a Cristo vencedor das tentações do demônio, serviram-no os anjos com manjares do corpo: Et ecce angeli ministrabant ei;41 e a Cristo vencedor das tentações dos homens, banqueteou a convertida com a sua alma, que é para Cristo o prato mais regalado, e aquele que só lhe podem dar os homens, e não os anjos. Esta foi a razão por que o Senhor disse que tinha comido.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.