Por Padre Antônio Vieira (1669)
Esta era a última e mais rematada cegueira dos escribas e fariseus. E a nossa, qual é? Eles eram cegos sobre cegos, porque não viam as suas cegueiras; e nós acaso vemos as nossas? Se as remediamos, confessamos que as vemos; mas se as não remediamos, é certo, e certíssimo que as não vemos. Ver e não remediar, não é ver. Apareceu Deus a Moisés naquele disfarce da sarça, disse-lhe quem era e a que vinha, e as palavras com que se declarou a divina majestade foram estas: Vidi afflictionem populi mei in Aegypto, et sciens dolorem ejus, descendi ut liberem eum (Ex. 3,7 s): Vi a aflição do meu povo no Egito, e conhecendo o muito que padece, venho a libertá-lo. – E essa aflição que há tantos anos padece o vosso povo, ainda agora a vistes, Senhor? Sei eu que antes de haver tal povo no mundo, revelastes vós ao avô de seu fundador; que o mesmo povo havia de peregrinar quatrocentos anos em terras estranhas, e que nelas havia de ser cativo e afligido. Assim o disse ou predisse Deus a Abraão, muito antes do nascimento de Jacó, que foi o pai das doze tribos e de todo o povo hebreu cativo no Egito. Scito prenoscens quod perigrinum futurum sit semen tuum in terra non sua, et subijicient eos servituti, et affligent eos quadringentis annis .30 Pois se havia mais de quatrocentos anos que Deus tinha revelado este cativeiro, e se desde o primeiro dia em que começou, antes, desde toda a sua eternidade, o estava sempre vendo, como diz que agora viu a aflição do seu povo: Vidi afflictionem populi mei? Diz que agora a viu, porque agora a vinha remediar: Vidi et descendi, ut liberem eum. O que se vê e não se remedeia, ainda que se esteja vendo quatrocentos anos, ainda que se esteja vendo uma eternidade inteira, ou não se vê, ou se vê como se se não vira. Por isso Ana, mãe de Samuel, falando como mesmo Deus, e pedindo-lhe remédio para outra aflição sua, disse: Si respiciens videris afflictionem mean (1 Rs. 1,11): Se vendo virdes a minha aflição. – E que quer dizer: se vendo virdes? Quer dizer: se remediardes, porque ver sem remediar, não é ver vendo, é ver sem ver.31 Quem duvida que neste mesmo dia viu Cristo pelas ruas de Jerusalém muitos outros cegos, mancos e aleijados, que concorrem a pedir esmolas às cortes, mas não dizem os evangelistas que os viu, porque os não remediou. Só dizem que viu este cego, a quem remediou, e por isso dizem que o viu: Vtdit hominem caecum.
Oh! quem me dera ter agora neste auditório a todo o mundo! Quem me dera que me ouvira agora Espanha, que me ouvira França, que me ouvira Alemanha, que me ouvira a mesma Roma! Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo: vedes a ruína das vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da fé, vedes o descaimento da religião, vedes o desprezo das leis divinas, vedes a irreverência dos lugares sagrados, vedes o abusados costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristondade? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da república, da justiça, da guerra, do estado, do mar, da terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Pais de família, que tendes casa, mulher, filhos, criados; vedes o desconcerto e descaminho de vossas famílias, vedes a vaidade da mulher, vedes o pouco recolhimento das filhas, vedes a liberdade e más companhias dos filhos, vedes a soltura e descamedimento dos criados, vedes como vivem, vedes o que fazem e o que se atrevem a fazer, fiados muitas vezes na vossa dissimulação, no vosso consentimento, e na sombra do vosso poder? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Finalmente, homem cristão de qualquer estado e de qualquer condição que sejas: vês a fé e o caráter que recebeste no Batismo, vês a obrigação da lei que professas, vês o estado em que vives há tantos anos, vês os encargos de tua consciência, vês as restituições que deves, vês a ocasião de que te não apartas, vês o perigo de tua alma e de tua salvação, vês que estás atualmente em pecado mortal, vês que se te toma a morte nesse estado, que te condenas sem remédio, vês que se te condenas, hás de arder no inferno enquanto Deus for Deus, e que hás de carecer do mesmo Deus por toda a eternidade? Ou vemos tudo isso, cristãos, ou não o vemos. Se o não vemos, como somos tão cegos? E se o vemos, como o não remediamos? Fazemos conta de o remediar alguma hora, ou não? Ninguém haverá tão ímpio, tão bárbaro, tão blasfemo, que diga que não. Pois se o havemos de remediar alguma hora, quando há de ser esta hora? Na hora da morte? Na última velhice? Essa é a conta que lhe fizeram todos os que estão no inferno e lá estão e estarão para sempre. E será bem que façamos nós também a mesma conta, e que nos vamos após eles? Não, não, não queiramos tanto mal a nossa alma. Pois se algum dia há de ser; se algum dia havemos de abrir os olhos, se algum dia nos havemos de resolver, porque não será neste dia?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.