Por Padre Antônio Vieira (1655)
Se se puser em questão qual tem perdido mais consciências e condenado mais almas, se o respeito, se o dinheiro, eu sempre dissera que o respeito, por duas razões: Primeira, porque as tentações do respeito são mais e maiores que as do dinheiro. São mais, porque o dinheiro é pouco, e os respeitos muitos. São maiores, porque em ânimos generosos mais fácil é desprezar muito dinheiro que cortar por um pequeno respeito. Segunda e principal, porque o que se fez por respeito tem muito mais dificultosa restituição que o que se fez por dinheiro. Na injustiça que se fez ou se vendeu por dinheiro, como dinheiro é coisa que se vê e que se apalpa, o mesmo dinheiro chama pelo escrúpulo, o mesmo dinheiro intercede pela restituição. A luz do diamante dá-vos nos olhos, a cadeia tira por vós, o contador lembra-vos a conta, a lâmina e o quadro peregrino, ainda que sejam figuras mudas, dá brados à consciência; mas no que se fez por respeito, por amizade, por dependência, como estas apreensões são coisas que se não vêem, como são coisas que vos não armam a casa nem se penduram pelas paredes, não tem o escrúpulo tantos despertadores que façam lembrança à alma. Sobretudo, se eu vendi a justiça por dinheiro, quando quero restituir, se quero, dou o que me deram, pago o que recebi, desembolso o que embolsei, que não é tão dificultoso. Mas se eu vendi a justiça ou a dei de graça pelo respeito, haver de restituir sem ter adquirido, haver de pagar sem ter recebido, haver de desembolsar sem ter embolsado, oh! que dificuldade tão terrível! Quem restitui o dinheiro, paga com o alheio; quem restitui o respeito, há de pagar com o próprio, e para o tirar de minha casa, para o arrancar de meus filhos, para o sangrar de minhas veias, oh! quanto valor, oh! quanta resolução, oh! quanto poder da graça divina é necessário! Os juizes de Samaria, por respeito de Jesabel, condenaram inocentes a Nabot, e foi-lhe confiscada a vinha para Acab, que a desejava (3 Rs. 21,11). Assim Acab, como os juizes, deviam restituição da vinha, porque assim ele, como eles, a tinham roubada. E a quem era mais fácil esta restituição? A Acab era muito fácil, e aos juizes muito dificultosa, porque Acab restituia a vinha, tendo recebido a vinha, e os juizes haviam de restituir a vinha, não a tendo recebido. Acab restituia tanto por tanto, porque pagava a vinha pela vinha; os juizes restituiam tudo por nada, porque haviam de pagar a vinha por um respeito. Quase estou para vos dizer que, se houverdes de vender a alma, seja antes por dinheiro que por respeitos, porque ainda que o dinheiro se restitui poucas vezes, os respeitos nunca se restituem. Torne Pilatos.
Entregou Pilatos a Cristo, e Judas também o entregou. Pilatos: Tradidit eum voluntati eorum. Judas: Quid vultis mihi dare, et ego eum vobis tradam?23 Conheceu Pilatos e confessou a inocência de Cristo, e Judas também a conheceu e confessou. Pilatos: Innocens ego sum a sanguine justi hujus; Judas: Peccavi tradens sanguinem justum.24 Fez mais alguma coisa Pilatos? Fez mais alguma coisa Judas? Judas sim, Pilatos não. Judas restituiu o dinheiro, lançando-o no Templo; Pilatos não fez restituição alguma. Pois, por que restitui Judas, e por que não restitui Pilatos? Porque Judas entregou a Cristo por dinheiro; Pilatos entregou-o por respeitos. As restituições do dinheiro alguma vez se fazem, as dos respeitos nenhuma. E se não dizei-o vós. Fazem-se nesta corte muitas coisas por respeitos? Não perguntei bem. Faz-se alguma coisa nesta corte que não seja por respeitos! Ou nenhuma, ou muito poucas. E há alguém na vida ou na morte, que faça restituição disto que fez por respeitos? Nem o vemos, nem o ouvimos. Pois como se confessam disto os que o fazem, ou como os absolvemos que os confessam? Se eu estivera no confessionário, eu vos prometo que eu os não houvera de absolver, senão condenar; mas como estou no púlpito, não absolvo nem condeno: admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§VIII
Quomodo? Por que modos? O labirinto mais intrincado da consciência. O morgado de Jacó, os direitos de Esaú e os sete enganos de Rebeca? Davi e a corte de Saul. Falta de escrúpulos de Jacó.
Quomodo? Por que
modo ou por que modos? Somos entrados no labirinto mais intrincado das
consciências, que são os modos, as traças, as artes, as invenções de negociar,
de entremeter, de insinuar, de persuadir, de negar, de anular, de provar, de
desviar, de encontrar, de preferir, de prevalecer, finalmente de conseguir para
si ou alcançar para outrem, tudo quanto deixamos dito. Para eu me admirar, e
nos assombrarmos todos do artifício e sutileza do engenho ou do engano com que
estes modos se fiam, com que estes teares se armam, com que estes enredos se
tramam, com que estas negociações se tecem, não nos serão necessárias as teias
de Penélope nem as fábulas de Ariadne, porque nas Histórias Sagradas temos uma
tal tecedeira, que na casa de um pastor honrado nos mostrará quanto disto se
tece na corte mais corte do mundo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.