Por Padre Antônio Vieira (1672)
Mas vamos continuando e discorrendo por todas as dificuldades deste mistério, e veremos como os judeus as têm já crido todas nas suas Escrituras. O Sacramento da Eucaristia por antonomásia é mistério do Testamento Novo: Hic calix novum testamentum est in meo sanguine (1 Cor. 11,25). Mas de tal modo é mistério novo, e do Testamento Novo, que todas as suas dificuldades se creram e se tiraram no Velho. Grande dificuldade é desse mistério, que o pão se converta em corpo de Cristo, e o vinho em seu sangue; mas se o judeu crê nas suas Escrituras que a mulher de Jó se converteu em estátua, se crê que a vara de Moisés se converteu em serpente, se crê que o Rio Nilo se converteu em sangue, que razão tem para não crer que o pão se converte em corpo de Cristo3. Grande dificuldade é deste mistério que se conservem os acidentes fora do sujeito e que subsistam por si sem o arrimo da substância; mas se o judeu crê que a luz, que é acidente do sol, foi criada ao primeiro dia, e o sol, que é a substância da luz, foi criado ao quarto, que razão tem para não crer que existam os acidentes de pão que vemos, onde não tem substância de pão que os sustente?4 Grande dificuldade é neste mistério que receba tanto o que comungou toda a hóstia, como o que recebeu uma pequena parte; mas se o judeu crê que quando seus pais iam colher o maná ao campo, os que colhiam muito e os que colhiam pouco, todos se achavam igualmente com a mesma medida, que razão tem para não crer que assim os que recebem parte, como os que recebem toda a hóstia, comungam todo Cristo?5 Finalmente é grande dificuldade neste mistério, que todas as maravilhas dele se obrem com quatro palavras, e que esteja Deus sujeito e como obediente às do sacerdote; mas se o judeu crê que a três palavras de Josué obedeceu Deus, e parou o sol, e que por não crer Moisés que bastavam palavras para converter a penha em fonte, foi condenado a não entrar na Terra de Promissão, que razão tem para não crer que bastam as palavras do sacerdote para que Cristo desça e o pão se mude6. De maneira que para o judeu confessar a possibilidade no mistério da Eucaristia, em que tropeça, não lhe é necessário nova fé, nem a nossa: basta-lhe a velha, a sua, ajudada só da razão. O que creu nas suas Escrituras. é o que aqui lhe manda crer a fé, só com esta diferença, que aqui mandam-se-lhe crer por junto os milagres que lá creu repartidos. A seu profeta o disse: Memoriam fecit mirabilium suorum, escam dedit timentibus se (SI. 110,4): Fez uma memória Deus das suas maravilhas no pão que deu a comer aos que o temem. De sorte que a memória é nova, mas as maravilhas são antigas; lá estavam divididas, aqui estão compendiadas.
Donde é muito para notar acerca do Memoriam fecit, que quando Cristo instituiu e se deixou no Sacramento, não pediu mais que memória: In mei memoriam facietis7.E por que não pediu entendimento e vontade? Cristo neste mistério pretendia amor e fé; para o amor era necessária vontade, para a fé entendimento; pois, por que se cansa em encomendar a memória? Porque o lugar onde Cristo instituiu este mistério era Jerusalém, e as pessoas diante de quem o instituiu, eram os judeus, e para Jerusalém e os judeus crerem e amarem este mistério, não lhes é necessário discorrerem como entendimento, nem aplicarem nova vontade; basta que se lembrem com a memória. Lembrem-se do que creram na sua lei, e não duvidarão de adorar o que nós cremos na nossa. Nenhuma nação do mundo tem mais facilitada a fé do Santíssimo Sacramento que os judeus, porque as outras nações para crerem, hão mister entendimento e vontade; o judeu para crer, basta-lhe a memória. Lembrem-se, e crerão. De sorte que a infidelidade nos judeus não é tanto infidelidade, quanto esquecimento: não crêem porque se não lembram. E se basta a memória para crerem, quanto mais bastará o discurso e a razão? Confessem pois convencidos dela a verdade infalível daquele Vere: Vere est cibus, vere est potus.
§III
Segundo inimigo: o gentio. O exemplo de Atreu, dando a comer as carnes de seu filho. Averróis horroriza-se com as palavras de Cristo. Apoiando-se em Tertuliano, o autor usa contra os gentios suas próprias fábulas. A idolatria é degrau para a fé. Vários exemplos tirados da mitologia. Nada há de descrédito para nossa religião nessas semelhanças. Davi e S. Pedro encarecem os mistérios da fé comparando-os com as fábulas pagãs. Se o gentio crê na fábula, que é arremedo, por que não crer na existência verdadeira de suas fábulas?
Ao gentio também lhe parece impossível este mistério, e a maior dificuldade que acha nele, são as mesmas palavras de Cristo: Caro mea vere est cibus, et sanguis meus vere est potus. Como é possível, diz o gentio, que seja Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue? Quando Atreu deu a comer a Tiestes a carne de seu filho, diz a gentilidade, que fez tal horror este caso à mesma natureza, que o sol contra seu curso tornou atrás, por não contaminar a pureza de seus raios dando luz a tão abominável mesa8. Como pode logo ser Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue? E como podem ser homens os que comem a carne e bebem o sangue a seu próprio Deus? Pareceu tão forçoso este argumento, tão desumana esta ação a Averróis, comentador de Aristóteles, que só por não ser de uma lei em que era obrigado a comer seu Deus, não quis ser cristão, e se deixou morrer gentio.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.