Por Eça de Queirós (1887)
Além disso, para melhor a persuadir "da minha indiferença por saias”, coloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida uma carta com selo - certo que a religiosa D. Patrocínio, minha senhora e tia, a abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escrita por mim a um condiscípulo de Arraiolos: e dizia, em letra nobre, estas cousas edificantes: "Saberás que fiquei de mal com o Simões, o de filosofia, por ele me ter convidado a ir a uma casa desonesta. Não admito destas ofensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava tais relaxações. E parece-me ser uma grandíssima cavalgadura aquele que, por causa de uma distração que é fogo-viste-lingüiça, se arrisca a penar, por todos os séculos e séculos, amém, nas fogueiras de Satanás, salvo seja! Ora, numa dessas refinadíssimas asneiras não é capaz de cair o teu do C. - Raposo".
A Titi leu, a Titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe que ia ouvir a Norma, beijava com unção os ossos dos seus dedos; e corria, ao Largo dos Caídas, à alcova da Adélia, a afundar-me perdidamente nas beatitudes do pecado. Ali, à meia luz que dava através da porta envidraçada o candeeiro de petrolina da sala, os cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras celestes de nuvem; o cheiro dos pós-de-arroz excedia em doçura o olor dos junquilhos místicos; eu estava no céu, eu era São Teodorico; e sobre os ombros nus da minha amada, desenrolavam-se as madeixas do seu cabelo negro, forte e duro como a cauda de um corcel de guerra.
Numa dessas noites, eu saia de uma confeitaria do Rossio, de comprar trouxas de ovos para levar à minha Adélia, quando encontrei o Doutor Margaride que me anunciou, depois do seu abraço paternal, que ia São Carlos ver o Profeta.
- E você, vejo-o de casaca, naturalmente também vem...
Fiquei varado. Com efeito vestira a casaca, dissera à Titi que ia gozar o Profeta, ópera de tanta virtude como uma santa instrumental de igreja.. E agora tinha de sofrer o Profeta, deveras, entalado numa cadeira da geral, roçando o joelho do douto magistrado, em vez de preguiçar num colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o seu docinho de ovos.
- Sim, com efeito, também eu ia daqui para o Profeta - murmurei aniquilado. - Diz que é uma musicazinha de muita virtude... A Titi gostou muito que eu viesse.
Com o meu inútil cartucho de trouxas de ovos, lá fui subindo, melancolicamente, ao lado do Doutor Margaride, a Rua Nova-do-Carmo.
Ocupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com tons de ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adélia, e no desalinho das suas saias - quando reparei que de uma frisa ao lado uma senhora loura e madura, uma ceres outonal vestida de seda cor de palha, voltava para mim, a cada doce arcada das rebecas, os seus olhos claros e sérios.
Perguntei logo ao Doutor Margaride se conhecia aquela dama "que eu costumava encontrar às sextas na Igreja da Graça, visitando o Senhor dos Passos com uma devoção, um fervor..."
- O sujeito que está por trás, a abrir a boca, é o Visconde Souto Santos. E ela ou é a mulher, a Viscondessa de Souto Santos, ou a cunhada, a Viscondessa de Vilar-o-Velho...
À saída, a viscondessa (de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho) ficou um momento à porta esperando a sua carruagem, embrulhada numa capa branca que uma penugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais altiva, incapaz de rolar, tonta e pálida, num travesseiro de amor; a cauda cor de palha alastrava-se sobre as lajes; era esplêndida, era viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos claros e sérios.
A noite estava estrelada. E, descendo o Chiado em silêncio ao lado do Doutor Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da Titi fosse meu e dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho, não na sua frisa, mas na minha alcova, já caída a grande capa branca, despidas já as sedas cor de palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os meus braços... Ai, quando chegaria a hora, doce entre todas, de morrer a Titi?
- Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? - perguntou-me o Doutor Margaride ao desembocarmos no Rossio. - Não sei se você conhece a torrada do Martinho... E a melhor torrada de Lisboa.
No Martinho, já silencioso, o gás ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas numa mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos, diante de um capilé.
O Margaride encomendou o chá, e vendo-me olhar com inquietação os ponteiros do relógio, afirmou-me que eu chegaria à casa ainda a horas de fazer a minha tocante devoção com a Titi.
- A Titi agora - disse eu - não se importa que eu esteja até mais tarde... A Titi agora, louvado seja Deus, tem mais confiança em mim.
- E você merece-o... Faz-lhe a vontade, é sisudo... Ela pouco a pouco tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro...
Então lembrei-me da velha afeição que ligava o Doutor Margaride ao Padre Casimiro, procurador da tia Patrocínio e seu zeloso confessor. E, arrebatando a oportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao magistrado, largamente, como a um pai.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.