Por Eça de Queirós (1925)
Estas honras, porém, não eram dadas unicamente ao seu talento: eram, também o prémio da sua conduta moral. Nunca o moço Alípio fora visto em conflitos com futricas ou em noitadas nos bilhares da Baixa. O seu ódio à estroinice era tão grande, que, para evitar a brutalidade burlesca do entrudo, refugiava-se em Celas, para onde ia a pé, em deliciosas excursões pelas margens suaves do Mondego. Não se pense, porém, que as severidades do estudo – tão justamente comparadas pelo nosso lírico a um vento esterilizador, – tinham ressequido no jovem Alípio as florescências naturais do sentimento moço. Se eu não receasse afectar uma forma preciosa, compará-lo-ia a um código dentre cujas folhas saísse uma flor de amorperfeito. Neste urso (nome pitoresco que se dá em Coimbra aos premiados, que, absorvidos pelo estudo, se descuidam de cul-tivar as graças exteriores) neste urso, havia um gamo – se tomarmos o gamo como símbolo animal das naturais vivacidades e das irreprimíveis simpatias. Somente Alípio era destas naturezas prudentes que cuidadosamente ocultam o que o Destino, o Acaso ou a Providência, lhes deu de mais excessivo ou desregrado.
Todo o homem tem vícios, ou paixões, ou gostos perversos, mas o seu dever é.19 escondê-los e mostrar-se apenas aos seus semelhantes como um ser regrado e bem equilibrado. Era assim, por exemplo, que apesar de gostar de genebra, Alípio nunca se entregava a esta inclinação na publicidade brutal dos botequins ruidosos: aí, tomava regradamente o seu copo de orchata. Mas, tendo assim cumprido o seu dever de homem, de cidadão, de premiado, dando um exemplo severo de sábia sobriedade, julgava poder, sem escrúpulos, depois de satisfeito o dever, satisfazer a inclinação; e em casa, no seu quarto solitário, usava com largueza da garrafa de genebra que guardava debaixo da cama, no caixote da roupa suja. Tocante exemplo de respeito pessoal e de submissão à decência!
A mesma discrição usava no que se refere aos sentimentos temos: seria incapaz de ir com condiscípulos, «numa troça», a casa dessas Vénus vulgares que batem o lajedo com sapatos cambados e cujo leito é como uma praça pública. Mas se a natureza, nas suas iniludíveis exigências, que às vezes os eflúvios da Primavera ou a preguiçosa e tépida atmosfera do Outono tornam mais mordentes, o solicitasse, esperava pela noite, e, com sapatos de borracha para que nem lhe ouvissem os passos, procurava as vielas mais retiradas, onde, depois de ter pactuado com a paciente que lhe seria guardado absoluto segredo, sacrificava com seriedade no altar de Vénus Afrodite.
Foi por essa discrição tão digna que ninguém – nem os seus companheiros – souberam de um terno episódio passado durante o seu quinto ano. Ele era então hóspede das Barrosos, respeitáveis velhas onde estudantes encontravam carinhos maternais por preços discretos. A servente, uma Júlia, tinha 18 anos, era virgem, e, segundo me confessou o Conde, a sua beleza delicada e tocante fazia lembrar esses tipos de odaliscas que se encontram nos Keepsakes, recostadas em coxins, à sombra de arcadas mouriscas, acariciando com a ponta aguçada dos dedos ideais uma gazela familiar. Tanta beleza, tão nobre, numa condição tão rasteira – a natureza compraz-se por vezes nestas irónicas antíteses – comoveram o coração de Alípio, e, uma noite em que a servente dormia na sua água-furtada, o jovem quintanista atreveu-se a subir, em pontas de pés, a admirar a forma delicada, mais bela na sua camisa de estopa do que as Vénus que os artistas florentinos recostavam em coxins de seda, com rouparias de damasco... Mas ao ranger perro da porta a servente acordou: ia gritar, assustada, quando Alípio, tapando-lhe a boca com a mão (sem a magoar contudo) rogou, na balbuciação supli-cante do desejo:
– Mas ouve, filha, ouve primeiro o que te vou dizer...
O que lhe disse? Quem sabe o que ao arvoredo diz o vento, o que dizem as alegres águas correntes às relvas dos prados, o que diz o rouxinol na sombra dos salgueiros, quando sobre a colina, serena e branca, se ergue a Lua?
Desde essa noite, Alípio não trocaria aquela água-furtada, onde a caliça caía com a humidade, pelas salas de mármore do Vaticano! Mas, admirável exemplo da seriedade do seu espírito, mesmo ali, não esquecia o seu trabalho: levava os expositores, a sebenta, os apontamentos, e, depois do primeiro transporte amoroso, enquanto, como ave fatigada, a servente se aninhava na cova da enxerga, o nosso Alípio, à luz de uma vela de sebo, ia estudando as mais altas questões do Direito Penal – até que o Desejo, ferrão despótico, o arremessava de novo aos braços brancos que o sono enlanguescia. Delicioso idílio!
E quantas vezes, nos seus anos ilustres, quando ele fazia História, decerto lhe volveriam à memória, como um trecho de mal lembrada melodia, aqueles meses de Verão e de amor romântico, em que a bela Júlia e o jovem Alípio, abafando as suas risadas, faziam no quarto miserável, sob as telhas, a caça aos mosquitos nas paredes e aos percevejos nas frinchas... Ah! bem o têm dito os poetas: a mocidade, como o sol, tudo esbate e envolve numa vaga névoa de ouro; e os mosquitos que se matam aos vinte anos, numa alcova amada, parecem deliciosos àqueles, que, aos quarenta, dormem sob cortinados de seda, sentindo na rua, junto à porta, o passo respeitoso da sentinela protocolar!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.