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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

"ÁGATA (caindo de joelhos aos pés de Júlio)

"- Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que ver, com esses desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!

"JÚLIO

"- E não me rasgaste tu também o coração? Tiveste tu piedade? Não. Retalhaste-mo! Meu Deus, eu que a julgava pura, nessas horas em que arrebatados..."

O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chávenas. Era Juliana, de avental branco, com o chá.

- Que pena! - exclamou Luísa. - Depois do chá se lê. Depois do chá.

Emesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:

- Não vale a pena, prima Luísa!

- Ora essa! É lindo! - afirmou D. Felicidade.

Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os bolos do Cocó.

- Aqui tem o seu chá fraco, Conselheiro - dizia Luísa. - Sirva-se, Julião. As torradas ao Sr.Julião! Mais açúcar! Quem quer? Uma torrada, Conselheiro?

- Estou amplamente servido, minha prezada senhora - replicou, curvando-se.

E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o diálogo opulento.

Mas, perguntaram, o que quer o empresário mais agora? Já tem a sala...

Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo de ovos na ponta dos dedos, explicou:

- O que o empresário quer é que o marido lhe perdoe...

Foi um espanto:

- Ora essa! É extraordinário! Por quê?

- Então! - exclamou Ernestinho encolhendo os ombros - diz que o público que não gosta! Quenão são coisas cá para o nosso país...

- A falar a verdade - disse o Conselheiro -, a falar a verdade, Sr. Ledesma, o nosso público nãoé geralmente afeto a cenas de sangue.

- Mas não há sangue, Sr. Conselheiro! - protestava Ernestinho erguendo-se sobre os bicos dossapatos -, mas não há sangue! É com um tiro! E com um tiro pelas costas, Sr. Conselheiro!

Luísa fez a D. Felicidade - "psiu!" e, num aparte, com um sorriso.

- Desses bolinhos de ovos. São muito frescos.

Ela respondeu, com uma voz lamentosa:

- Ai, filha, não!

E indicou o estômago, compungidamente.

No entanto o Conselheiro aconselhava a Ernestinho a demência; tinha-lhe posto a mão no ombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:

- Dá mais alegria à peça, Sr. Ledesma. O espectador sai mais aliviado! Deixe sair o espectadoraliviado!

- Mais um bolinho, Conselheiro?

- Estou repleto, minha prezada senhora.

E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto devia perdoar?

- Eu, Conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte. E exijo quea mates, Ernestinho!

D. Felicidade acudiu, toda bondosa:

- Deixe falar, Sr. Ledesma. Está a brincar. E ele então que é um coração de anjo!

- Está enganada, D. Felicidade - disse Jorge, de pé diante dela. - Falo sério e sou uma fera! Seenganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, num caso desses, um primo meu, uma pessoa da minha família, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um princípio de família. Mata-a quanto antes!

- Aqui tem um lápis, Sr. Ledesma - gritou Julião, estendendo-lhe uma lapiseira.

O Conselheiro, então, interveio grave:

- Não - disse -, não creio que o nosso Jorge fale sério. É muito instruído para ter idéias tão...

Hesitou, procurou o adjetivo. Juliana pôs-se-lhe diante com uma bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente sob um vasto guarda-sol eriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:

- ...tão anticivilizadoras.

- Pois está enganado, Conselheiro, tenho-as - afirmou Jorge. - São as minhas idéias. E aquitem, se em lugar de se tratar de um final de ato, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: "Sabes, encontrei minha mulher..." - Oh, Jorge! - disseram, repreensivamente.

Bem, suponhamos, se ele mo viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha palavra de honra, que lhe respondia o mesmo: "Mata-a!"

Protestaram. Chamaram-lhe "tigre", "Otelo", "Barba-Azul". Ele ria, enchendo muito sossegadamente o seu cachimbo.

Luísa bordava, calada; a luz do candeeiro, abatida pelo abajur, dava aos seus cabelos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido.

- Que dizes tu a isto? - disse-lhe D. Felicidade.

Ela ergueu o rosto, risonha, encolheu os ombros...

E o Conselheiro logo:

- A senhora D. Luísa diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de família:

Impurezas do mundo não me roçam

Nem a fímbria da túnica sequer.

- Ora, muito boas noites - disse, à porta, uma voz grossa.

Voltaram-se.

Ó Sebastião! O Sr. Sebastião! Ó Sebastiarrão!

(continua...)

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