Por Eça de Queirós (1870)
— Esse ramo podiam ter-lho dado, podia tê-lo trazido ele mes mo de fora. — E este lenço que encontrei ontem debaixo de uma cadeira?E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou nele avidamente, examinou-o e guardou-o.M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquilado pela dura lógica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com uma voz humilde, quase suplicante:- Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indícios não pro vam. Este lenço, de mulher indubitavelmente estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?- E não se lembra também que não lhe encontrámos gravata?
O mascarado calou-se sucumbido.- No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte — excla mei e u. — Deploro vivamente esta morte, e falo nisto unicamente pelo pesar e pelo horror que ela me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caísse às mãos de uma mulher ou àsmãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não pode ficar por muito mais tempo insepulto: é pre ciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. Oque desejo é sair.
— Tem razão, vai sair já — cortou o mascarado. E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:- Um momento! Eu volto já!
E saíram ambos pela porta que comunicava como interior da casa, fechando-a à chavepelo outro lado. Fiquei só, passeando agitadamente. A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentosinteiramente novos e diversos daqueles que me ha viam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem se não no silêncio e na sombra, pensamentos que o diadesvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol.
Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridorde um tiro.
Maquinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com estranha comoção, sobre a alvura do travesseiro, preso num botão de madrepérola, um longo cabelo louro, um cabelo de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Pus-me a contemplá-lo, ávida e longamente.
«- Era então certo! Aí estás, pois! Encontro-me finalmente... Pobre cabelo! Apiedame a simplicidade inocente com que te ficas te aí, patente, descuidado, preguiçoso, lânguido! Podes ter maldade, podes ter malvadez, mas não tens malícia, não tens astúcia. Te nho-te nasmãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estre meces, não coras; dás- te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no entanto, ténue, exígua, quase microscópi ca, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ela autora docrime? É inteiramente inocente? É ape nas cúmplice? Não sei, nem tu mo poderás dizer?»
De repente, tendo continuado a considerar o cabelo, por um processo de espíritoinexplicável, pareceu-me reconhecer de súbi to aquele fio louro, reconhecê-lo em tudo: na sua cor, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, apareceu-me então a mulher a quem aquele cabelo pertencia! Mas quando o nome dela me veio insensivelmente aos lábios,disse comigo:
«Ora! Por um cabelo! Que loucura!E não pude deixar de rir. Esta carta vai já demasiadamente longa. Continuarei ama nhã.
VII
Contei-lhe ontem como inesperadamente havia encontrado à cabeceira da cama umcabelo louro. Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo lu minoso, languidamenteenrolado, quase casto, era o indício de um assassinato, de uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido. A pessoa a quem ele pertencia era loura, clara, decerto, pequena, mignonne, porque ofio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação ténue, delicadamente or ganizada.O carácter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, oucaprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Alemanha, por que o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, há bito das mulheres do Norte, completamente estranhoàs meridio nais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura na tural.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.