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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Na manhã seguinte um raio de sol, entrando pela janela, despertou bruscamente Godofredo. Ergueu-se de repente sobre o cotovelo, e, batendo as pálpebras, ficou espantado de se ver num sofá, vestido, com botas. Então bruscamente a idéia toda da sua desgraça caiu-lhe sobre o coração pesadamente. E um véu de crepe pareceu envolver tudo em torno dele. Na véspera, depois que o Neto partira, estendera-se ali, morto de fadiga, e adormecera logo, dum sono fundo e pesado. Então sentou-se no sofá. Havia um grave silêncio na casa e na rua: eram apenas seis horas. Em redor o quarto conservava a desordem da véspera, com a mala ao centro, o chambre de Ludovina atirado aos pés da cama. Olhou muito tempo aquele chambre, o grande leito intacto, onde ninguém se deitara, com as duas travesseirinhas ao lado uma da outra. Depois, como na véspera, percorreu a casa: na sala de jantar, a mesa ainda tinha a toalha da véspera e em cima uma vela esquecida derretera-se e extinguira-se dentro dum castiçal. Depois diante da porta da sala de visitas tomou-o uma covardia, não se atreveu a mover o reposteiro. E voltou para o quarto, tornou a sentar-se no sofá, as mãos ao acaso, o olhar vago, sem saber o que havia de fazer àquela hora matutina, em que a cidade ainda dormia. Àquela hora Ludovina decerto dormia também. E recordava-se ds manhãs em que ele acordava cedo, se erguia de manso, abria uma fresta da janela, enquanto ela dormia, com os seus cabelos numa rede, uma renda do chambre em volta do pescoço, e as longas pestanas negras fazendo-lhe uma sombra na face... Agora o leito, ainda feito, àquela luz clara da manhã, dava-lhe uma sensação de frialdade, de desconforto... Uma tristeza invadiu-o, imensa, sem fim, que o dissolvia, lhe dava vontade de deitar a cabeça para um canto do sofá, ficar ali a morrer... E a mesma idéia da véspera voltava, a idéia da morte, entrando-lhe no espírito como a lenta suavidade duma carícia.

Mas daí a horas tudo estaria decidido, talvez ele fosse como um homem morto. Era às onze horas que devia encontrar o outro. O coração batia-lhe à idéia que o ia ver, outra vez, diante de si; e parecia-lhe, agora, impossível de o imaginar numa outra atitude, que não fosse como o vira na véspera, com o braço em torno da cinta dela. Mas agora a sua idéia da véspera, o tirar à sorte o suicídio, que parecera tão natural, espantava-o um pouco. Parecia-lhe estranho que fosse ele, ele, Alves, que, ali, naquela rua de são Bento que o sol da manhã dourava, tivesse tido semelhante idéia, uma idéia trágica, e própria dum coração violento. E tomava-o uma inquietação. Que diria o outro a semelhante proposta? Se recusasse? E outras dificuldades de detalhe surgiram . Como tirariam à sorte? Com papéis brancos? E subitamente veio-lhe o receio que, diante duma proposta tão exaltada, o outro se risse... Nesse caso esbofeteava-o. Mas não, não poderia recusar, era um homem de honra! Enfim daí a horas o saberia. E não queria pensar mais nisso. Aquela idéia ocupava-o, quase o impedia de sofrer; pôr outro lado, dava-lhe uma espécie de consideração pôr si mesmo, encobria o ridículo – e não queria pensar em nada que diminuísse a importância desse plano.

No entanto sentiu passos na cozinha, as criadas tinham-se erguido. Na rua, um rumor ia subindo, vozes de pregoada, as carroças, a sussurração da cidade que acorda. E então pouco a pouco ele foi entrando na rotina diária, pôs os botões na camisa lavada, afiou a sua navalha de barba. Mas aquela grande mala no quarto incomodava-o.. De repente, lembrou-se que devia fazer o seu testamento. E imóvel diante do espelho, com metade da cara ensaboada, ficou revolvendo esta idéia: e um vago espanto, uma estranheza tomava-o de estar ali pensando no testamento.

Porque agora todas as idéias que na febre da véspera lhe tinham parecido naturais e fáceis tomavam agora, naquela luz clara da manhã, entre a rotina da sua toillete, uma frieza pouco natural, falsa, que repugnava ao lado positivo do seu caráter.

Às oito horas a campainha retiniu. Ele foi escutar. Depois a criada andou para dentro, para fora, ele perguntou quem era? A criada do sr. Neto. E não ousou perguntar mais nada, nem o que ela queria.

Depois foi o almoço. Ele devorou. Estranhou mesmo de não ver o fiambre na mesa – e a criada, depois de o trazer, disse que a senhora ia mandar buscar as malas à noite. Ele não disse nada, detestando cada vez mais a Margarida, que parecia continuar a zelar os interesses da senhora, receber os recados dela, ser ainda a sua confidente. E, como faltava o açucareiro, Godofredo foi áspero, exagerou aquela falta, ameaçou-a de a pôr na rua.

A criada destro no corredor resmungou. Ele gritou:

— Pouco barulho!

E a cada momento o coração dava-lhe pulos à idéia de se ir encontrar com o outro. Com um terror de atravessas a rua, onde talvez se pudesse já falar na sua desgraça, mandou buscar uma tipóia. A criada tardou. O relógio caminhava. E ele nervoso, quase com febre, ia da janela à cancela, calçando as luvas, e parecendolhe que o solho que pisava era mole, e que lhe cedia sob os pés. Enfim o coupé chegou. E ele desceu, com a garganta apertada numa angústia horrível. A voz sumia-se-lhe quase ao dar a adresse do seu escritório ao cocheiro. Pareceu-lhe que o trem voava; e naquela emoção ia-se-lhe embrulhando o estômago, o almoço subia-lhe à garganta. Enfim chegou. E era uma atarantação, mal podia achar na algibeira uma placa para pagar ao cocheiro.

(continua...)

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