Por Coelho Neto (1897)
- Hóspede na terra, venho de longe e comigo, em estado que não consente esforço, trago minha esposa, que aqui vedes. Se permitirdes que ela fique um momento convosco enquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos há de louvar.
O velho pastor, de fartas barbas amarelecidas, longos cabelos espalhados pelos ombros, que um melote cobria, soergueu-se e falou:
- A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.
- Ela fica, eu sigo pela pousada. Maria tímida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha. E o patriarca partiu.
Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difícil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.
Logo à entrada, sob o vasto alpendre, viu as altas pilhas de fardos, e, em volta, estendidos em peles, mercadores e recoveiros. O hóspede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:
- São homens que se aboletam ao relento, por falta de cômodos. Dificilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas atraíram grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José prosseguiu. Nas vielas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.
Debalde o ancião entrava nas estalagens. As próprias choupanas recebiam hóspedes e, pelas colinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem êxito
Já o silêncio anunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo à caverna.
Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo asas largas, diáfanas, feitas como de névoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.
Entrou. O velho pastor velava diante das brasas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.
AS TRÊS VIRGENS
Quando o menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: “Se vira as três virgens que cercaram o infante ungindo-o de luz?”
A Imaculada respondeu no mesmo tom discreto:
- Logo que sai do sono, ainda antes de ver meu filho, dei com elas, imóveis, aclarando toda a caverna, de joelhos diante do recém-nascido.
Não falavam. Não sei quem são. Desapareceram de repente como as estrelas desaparecem. - Seriam anjos? Uma serena voz, saindo das pedras, falou no silêncio:
- A primeira é toda a crença do homem: é a virtude que leva a alma à presença do Altíssimo.
Antes da vinda do Messias era a névoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora é a luz pura e perene, a luz viva que guia ao paraíso através de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos sofrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, inflexível e segura. É a fé.
O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é Deus. É a mais forte da três. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: É a esperança.
Veste-se de ilusões, recama-se de sonhos para distrair a alma, livrando-a do desespero. É como o ramo verde que se inclina à borda dos abismos. É a divina miragem que, através das agruras da vida, reanima o coração combalido, criando perspectivas venturosas.
Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada à fé é a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.
Sem ela a miséria seria um flagelo, a dor seria intolerável. É uma força feita de sonho. Isolada é a fantasia.
A terceira é o amor, é a lágrima que se converte em misericórdia, é a bondade onipotente, a meiguice que salva, a resignação que remite, a paciência que conforta, a lã que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece. É o conjunto amoroso de todas as beneficências – a caridade. São as três irmãs que acompanham o Messias. Ele tomou-as ao paganismo e converteu-as transmitindo-lhes a sua essência. Eram as Cárites, são as Virtudes. Foram as Graças, são as beneficiadoras.
Com elas Jesus fará a redenção do homem.
Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe os humildes.
Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados. - Não ouviste falar?
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.