Por Raul Pompéia (1881)
- Não me entende. Não é?... Eu te explico... Um passarinho, antes de recolher-se ao ninho,pousou no meu alçapão... lá no caminho. Estava a cair, quando uns tratantes apareceram, levando um pequeno para batizar-se. Espantaram-me o passarinho e riram-se de mim... Agora eu rio-me deles... Espantando o passarinho, espantaram o sacristão... Bem feito! Não acha?
- Bem feito! Bem feito... Mas o mau é que os tais do batizado brigaram com o Sr. vigário, porfaltar o sacristão, e juraram que se haviam de mudar da freguesia para não voltar a uma igreja tão...
- Oh! oh! Que logro!
- Sim! mas o Sr. vigário está seriamente zangado por isso... com você... E fuja, Brício! Aí vemgente!
Brício sumia-se por um lado, quando por outro mostrou-se o padre C... voltando uma esquina.
Ao ver o amigo do sacristão, o sacerdote dirigiu-se a ele:
- Você viu o Brício?
- Não, senhor, respondeu o menino.
E se afastou do padre, que ficou mordendo o beiço, ante a mentira do pequeno.
- Este é outro, disse ele, a meia-voz. Pensa que eu não ouvi-lhes a conversa...
Tinha já Brício chegado à igreja e se acomodara na torre.
Dentro em pouco avistou, caminho da matriz, o vigário
Vinha devagar, por causa da sua moléstia. Brício teve então umas das suas lembranças... E com elas havia várias vezes apaziguado o sacerdote.
- Bom, disse consigo, ele me há de avistar... Se me mandar descer, eu direi que apanhei umreumatismo que não me deixa andar quase... Ótima razão!
É a mesma que ele tem para não subir. O reumatismo que não o deixa subir, porque não me impedirá de descer?... Mais tarde descerei sem receio...
No princípio de uma cólera, qualquer cousa que devera fazer rir, irrita mais ainda. No fim sucede o contrário: extingue-a de todo.
Parece que o sacristão sabia disto, que cuidou em preparar-se no campanário. Saltou pela janela da frente curvando-se para não esbarrar na sineta, e passava para cavalgar no ângulo das cornijas do frontispício da Matriz, onde seria facilmente visto, apesar da noite que entrava...
Então, debaixo da estrada, se fez ouvir um grito de terror.
Era o vigário C...
Sucedera uma cousa horrível.
O pobre sacristão escorregara para fora e, fiando-se demasiado na segurança da cruz de ferro, agarrara-se a ela. O ferro oxidado vergou, inclinando-se para a frente, e depois abaixando-se.
Brício, com as mãos pregadas na cruz com uma energia desesperada, pedia socorro... suspenso no ar.
A cruz se ia entortando lentamente. Se Brício fosse pesado, o seu suplício não duraria tanto.
O ferro começou a rachar-se.
O menino, aterrado, via como avançava a morte, e ouvia os gritos do pároco abaixo dele...
O mísero vigário estava fora de si. Tinha querido subir ao campanário. Não pudera. Colocara-se então por baixo de Brício e, com os braços abertos, esperava neles recebê-lo.
- Brício! Brício! gritava.
E o ferro da cruz, primeiro devagar... depois, rápido... partiu-se.
Daí a pouco estava no adro da Matriz de*** um pequeno cadáver... A cabecinha, descansada nas lajes da escada, pendia um pouco para trás, com os cabelos a nadar em sangue... O corpo estendia-se inerte sobre a terra, uma das mãos encostada aos olhos, a outra segurando-se a uma cruz de ferro... Era o sacristão Brício.
A porta da igreja estava aberta. A noite enchera de trevas o santuário... Apenas no fundo luzia o clarão baço da alampada, com essa expressão sepulcral e triste que se descobre no olhar do moribundo... E este clarão, flutuando naqueles negrumes, deixava ver no meio da nave uma sombra negra.
Dir-se-ia um espectro...
Mas o espectro falou:
- Malfadada criança!
E depois com entonação soturna.
- Eu pecara, meu Deus... E tu me puniste!
Estas vozes perderam-se pelos recantos do templo, e a luz da alampada tremulou como em soluços.
Raul Pompéia
A MONA DO SAPATEIRO
I
Ela servia bem...
Era redondinha, rosada, bonita. Sobretudo era nova, novíssima mesmo...
Uns dezesseis anos se tanto.
Fernando e Emílio espiavam-na. Viam-na à porta da lojinha do pai, o sapateiro Cândido, um Cândido preguiçoso, ébrio e pobre. Achavam tentadora, ó diabo! a melancolia da menina, com o rosto colado ao portal da loja, observando quem passava e seguindo com um olhar expressivo as mocinhas de sua idade que transitavam de carro, ou vinham pelo passeio, a pé, apanhando garbosamente a seda farfalhante das saias para não roçarem pelo vestidinho enxovalhado e sujo, que lhe caía dos quadris.
Não trabalhava quase a filha do sapateiro. A ociosidade do pai a escusava ante a própria consciência e a opinião pública, isto é, o veredict da vizinhança.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.