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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

No entanto, conhecia o gênio do Furtado e uma ocasião surpreendera-lhe no bolso do paletó uma cartinha de mulher, muito cheirosa e dentro da qual havia um amor-perfeito já desbotado como essas flores raras que se eternizam entre as paginas dos álbuns. D. Branca sorriu e devorou com os olhos a misteriosa epístola, em verdade bem misteriosa, porque nada tinha de indiscreto senão o caráter visivelmente feminino da letra. Nunca se vira maior laconismo, nem tão cautelosos dizeres numa correspondência de mulher. Assinavam as iniciais B. F. — "Branca Furtado!", pensou com estranheza e admiração.

E tornou a colocar o papel no bolso do marido, respeitosamente. Era um segredo e ela não tinha o direito de violar segredo a quem quer que fosse.

Outra ocasião deparou com o retrato da cuja. - "Sim senhor: uma mulher esplêndida! O Luís tinha gosto para mulheres..." No dorso da fotografia, em cartão imperial, a seguinte dedicatória: Ao Luís — B. F.

PETRÓPOLIS, 18..

— Petrópolis! - exclamou D. Branca. — É gente fina... (e com uma ponta de despeito) esses homens... esses homens!...

O retrato voltou ao lugar onde estava, sem um arranhão.

Impossível haver mais liberdade e mais confiança entre marido e mulher.

O procedimento de Luís para com D. Branca era igualmente recatado e tudo fazia crer que a víbora do ciúme não lhe mordera ainda o coração de esposo. Compreendiam-se um ao outro, e, quando em um casal, a mulher compreende o marido e o marido compreende a mulher, não há mais bela instituição que o casamento. Ninguém peca por aceitar a vida como a vida sempre foi - tal a filosofia de D. Branca, e com pequenas restrições, a do secretário.

Dizer que se não amavam? Erro gravíssimo. Adoravam-se quase, e, em certos momentos, era como se fossem noivos em plena lua-de-mel. Segredos da alma humana...

Uns olhos cobiçosos e apaixonados como os de Luís não podiam, decerto, ver indiferentemente um rosto lindo de mulher. Foi o que se deu com relação a Adelaide, a meiga esposa de Evaristo de Holanda. O secretário viu-a no dia da chegada e admirou-a intimamente, com olhadelas furtivas e traiçoeiras, enquanto o carro rodava para Botafogo. Ria, e o seu riso tinha um tique muito delicado, muito nobre, muito fino, de cavalheiro gentil, que se aprimora numa cortesia de salão. E, era a todo o instante - "vossa excelência", a todo o instante uma frase elogiosa e comedida e mais uma perguntazinha discreta que Adelaide respondia com o natural embaraço de quem chega a um lugar estranho e pela primeira vez ouve linguagem desconhecida.

O que logo provocou a atenção da jovem esposa de Evaristo foi um grande anel de brilhante que Furtado trazia no dedo - uma pedra enorme, de primeira água, cujas facetas se multiplicavam à vista incisivamente, como um prisma, quando ele erguia a mão morena para cofiar o bigode.

No outro dia, ao almoço, Adelaide estava com um vestido branco de cassa e Furtado achou-a mais comunicativa e mais bela. A toilette de gorgorão dava-lhe uns ares de respeito, que não iam bem com a frescura primaveril do seu rosto; e aquela mudança de vestuário, aquela nonchalance obrigou-o também a mudar o tratamento de "vossa excelência" que tantas vezes repisara na véspera. Evaristo mesmo já lhe havia observado que estavam "em família", que deixasse o "vossa excelência" para pessoas de cerimônias, do contrário não se entendiam, nem podiam estimar-se como bons e velhos amigos.

E entraram todos na mais ampla intimidade, no mais belo convívio doméstico e na mais franca harmonia. — Era pena que o andar superior não estivesse desocupado, oh, era pena! — lamentava o marido de D. Branca. — Uns estrangeiros que ninguém sabia donde tinham vindo!...

Mas, no íntimo, desejava que os estrangeiros não se mudassem nunca; ele assim estava mais perto do seu novo ideal... Em casa ou no Banco, uma só preocupação enchia-lhe o espírito: — Adelaide. Como e por quê? Mistério! E a vida o que é senão um grande e tenebroso mistério?

Luís coçava a cabeça, atordoado, impaciente, fechando os olhos como para ver melhor no fundo da sua alma, e quer os fechasse, quer os abrisse, tinha diante deles a imagem de uma criatura excepcional - anjo e mulher — e essa criatura tinha os olhos de Adelaide, a boca de Adelaide, o sorriso de Adelaide! Como resistir à tentação, ele, que julgava a mulher uma força divina, um poder acima de todos os poderes humanos e acima de todos os preconceitos sociais? .

E nesse filosofar à-toa, nesse monologar do cérebro, perpassava também o riso bom de Evaristo, a alma simples do amigo, cheio de confiança e de um otimismo às vezes ingênuo. Furtado espancava uma imagem para deliciar-se com a outra, com a dos olhos meigos e sorriso angelical...

À noite, fora de horas, acordava, abria os olhos num êxtase sonâmbulo — enquanto a mulher se imobilizava — e punha-se a fazer cálculos, a maquinar planos de general em véspera de batalha. — Como havia de ser isso? Como havia de ser aquilo?...

E, no outro dia, eram os mesmos olhares, as mesmas finezas, que Adelaide já não estranhava, por virem donde vinham. Não padecia dúvida que o Sr. Furtado era um cavalheiro de educação e ela achava muito bonito um homem de educação... Os modos do Sr. Furtado, quem é que os não apreciava?

(continua...)

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