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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Usando e abusando dessa permissão e da tolerância de padre Azevedo, com que não podia contar em matéria de dogma, Antônio abrira os diques à eloqüência, banhara-se em controvérsias, e de narinas dilatadas, olhar em fogo, boca espumante de entusiasmo, vibrara o estilete da objeção contra a doutrina da cadeira, com um ar de triunfo que fazia pasmar a classe. Pusera em sobressalto a ortodoxia do professor, discutindo a matéria das vinte e uma proposições condenadas por Alexandre VII em 1665, e, principalmente, a proposição condenada por Inocêncio XII, relativa à validade do sacramento da penitência em face da não idoneidade do confessor. Padre Azevedo apertado da urgência da resposta, cedera muitas vezes à lógica do discípulo, invocando, por fim, a sua autoridade privada para fazer calar o moço discutidor. Antônio saíra da aula dizendo para os companheiros que o levara à parede, o que - agora o reconhecia pesaroso - era duma vaidade pueril.

Uma vez chegara a derrotar completamente o mestre, sustentando com Teodoro de Beza que para a salvação da alma bastava a fé em Deus e em Jesus Cristo, sendo escusadas as boas obras, coisas decentes e convenientes, mas não indispensáveis à salvação eterna. Embalde padre Azevedo, tomando o partido da boa razão e da sã moral lhe perguntara como poderia Cristo, no dia do juízo final, apartar os bons dos maus e pesá-los na balança da sua justiça, condenando ao fogo eterno os que vendo-o com fome não lhe deram de comer; vendo-o com sede não lhe deram de beber; vendo-o nu não deram de vestir etc.

Antônio de pé, com o braço estendido, em atitude vitoriosa atirara à cabeça do padre aturdido com o exemplo do bom ladrão, e, depois, sem descanso, o submergira num dilúvio de textos sagrados pedidos ao Evangélio de S. João, a Santo Ambrósio, a S. Bernardo e a outros Doutores da Igreja. E por fim, por golpe de graça, descarregara a célebre frase de Santo Agostinho, que, no entender do próprio mestre, valia por todos os Doutores:

— Hæc est charitas quam si solam habueris, sufficit tibi.

E dominado pelo demônio da vaidade, para amesquinhar o adversário, traduzira:

— Este é o amor de Deus que, se nada mais tiveres, bastar-te-á.

Terminara por fim, perdendo toda a noção de respeito e da desigualdade das posições, imitando a voz fanhosa do mestre:

— Tantus unus quanti omnes!

Ouvindo tão decisivo texto do grande Patriarca, e percebendo a sátira da última citação, padre Azevedo perdera a tramontana, e levantando-se indignado, condenara o discípulo a jejuar todo aquele dia a pão e água.

Mas Antônio, vítima indefesa do demônio da rebeldia e da vaidade, eletrizado pela vitória que julgara tão brilhantemente alcançada, declarara com arrogância:

— Não posso jejuar hoje, porque é sábado, nem amanhã, porque é domingo. Um bom cristão não pode fazer de tristeza o dia em que o Senhor descansou e em que Judas se enforcou, nem tampouco o dia em que Jesus Cristo ressuscitou. Já os Sagrados Apóstolos o ensinaram e S. Clemente Romano o repetiu nas Constituições Apostólicas. Santo Inácio disse que quem jejua aos sábados e domingos é matador de Cristo - Si quis dominicam diem... V. Rev.ma sabe o resto. Ora eu não quero ser o matador do meu Deus, coisa de que Nosso Senhor de Belém me livre...

A heresia era evidente, e desta vez complicada desobediência e desrespeito formais. Padre Azevedo ficara verde de indignação, que a muito custo concentrara por alguns momentos, atendo-se a um silêncio esmagador que pesou sobre toda a classe e produziu sobre Antônio de Morais o efeito dum calmante poderoso, que lhe permitiu entrever o excesso de vaidade o levara. Os colegas miravam-no com desprezo mesclado do santo horror da heresia. Ele próprio, encontrando-se no meio da sala, com o braço estendido, achou-se ridículo, cheio de fatuidade e ignorância, vítima indefesa do demônio que lhe tentava o amor de aplausos para melhor lhe segurar a alma...

Mas o silêncio do mestre não fora demorado, que não lho permitia a índole barulhenta. Largara a cadeira, num ímpeto de vingança pessoal, mas a consideração do organismo atlético do campônio que tinha diante de si transformado em formigão, ou o sentimento da dignidade do cargo obrigou-o a recorrer à autoridade do reitor, que não tardou em aparecer, sombrio e grave na sua batina negra.

Fora informado do ocorrido, e mostrava no rosto o espanto causado pela rebeldia do seminarista, e a resolução firme de dobrar aquela vontade exaltada e impetuosa. A campanha estava de antemão vencida. Antônio nenhuma resistência opusera ao carrasco. Roera a dúzia de bolos com resignação evangélica, e entrara para o cárcere submisso e arrependido, curtindo em silêncio o áspero jejum de três dias a pão e água.

(continua...)

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