Por Aluísio Azevedo (1880)
— Não é isso verdade?... perguntou Maffei — Ë, fez secamente o moço.
O velho continuou sacudindo os ombros, cada vez mais automaticamente.
— Ficou desses desgraçados um filho; não sei se herdou do pai todos os vícios, porém é certo ter herdado toda a miséria, que o fez peregrinar pelas ruas de Roma, sem pão, sem lar, sem família. É isto ou não verdade?
— Meu pai, disse humildemente o filho de Teodoro, não me deixou miserável, deu-me uma rabeca e ensinou-me a tirar dela o pão para a boca.
— Mas foste um vagabundo!
— Fui.
— Bem, continuou o velho. Eu também fui pobre, eu também tenho família, no entanto nunca fui um desgraçado!
— Porque foi sempre feliz, disse indiferente o moço.
— Mas sou muito ambicioso! muito! Entendes?! Disse o velho arregalando os olhos e batendo convulsivamente na perna de Miguel. — Já o sabia, respondeu este com calma.
O velho continuou como se falasse para si:
— Fui pobre, é verdade, mas trabalhei e trabalhei muito e por muito tempo, para juntar alguma coisa; poupei, especulei e consegui entesourar ainda mais! Hoje sou rico! Bastante rico! Entendes? Porém, mais do que nunca ambicioso. Preciso de minha filha para subir, talvez venha a ser nobre, e não para dar-ta a ti ou a outro qualquer boêmio.
O moço resmungou alguns sons ininteligíveis.
— Bem sei, prosseguiu mais brando o velho, de tudo quanto se tem passado; Rosalina sofrerá, por isso que te ama, mas espero que em breve esteja tudo acabado. Tu ficas aqui e nós partimos. Por ora aceita isso para te arranjares.
E assim dizendo procurou manter na mão de Miguel uma bolsa com dinheiro, que tirara da algibeira.
— Guarde-o! disse este com altivez. Não preciso de esmolas!
— Não queres então aceitar? insistiu Maffei.
— Não! disse resolutamente Miguel, levantando-se.
— Contudo, creio que não nos aparecerás em Nápoles...
— É impossível!...
— Impossível?!... perguntou Maffei, cuja cólera principiava a transpirar. E que vai lá fazer? Sim! que vais buscar?!...
— Ver Rosalina... disse naturalmente Miguel, procurá-la, dizer que a amo e amarei sempre!
— É essa a tua resolução? — Até a morte.
A resoluta calma do artista incendiou o ânimo do velho, e, transformando-o rápido como um raio, assistiu-lhe sangrenta a raiva por todos os poros, como se dentro lhe rebentasse uma aneurisma de cólera.
Rangiam-lhe os queixais, roncava-lhe a respiração, partiam-lhe chispas diabólicas dos olhos; as unhas, de tão cerradas, sangravam-lhe as palmas. E, medonho e insolentemente nervoso, levantou-se cambaleando.
Cravou por algum tempo no moço o olhar esfogueado e com uma voz, que seria a do tigre se o tigre falasse, bradou:
— Preferes antes morrer! desgraçado! a deixar de vê-la? Não é isso?! fala!
O velho roncava estas palavras na posição da fera que arma o pulo. Firmando nas plantas, com as mãos abertas como duas garras, encarava feroz Miguel, como suspenso à espera da resposta suprema.
O amante de Rosalina, depois de leve perturbação, meneou a cabeça afirmativamente.
Este gesto foi o grito de guerra!
Um bramido selvagem ecoou nas cavernas do peito do velho! E a pantera arremeteu-se contra a vítima!
CAPÍTULO XVII
Entretanto, as nuvens negras cresciam no céu, como os fantasmas crescem na sombra, como remorso cresce no coração, como a ferrugem cresce no ferro e como a úlcera cresce nos pulmões.
O mar, cada vez mais encarapinhado, quebrava-se de encontro à rocha, salpicando-a de cuspiduras espumosas e grossas, como as de um ébrio.
Com este salivar a pedra se tornava mais e mais escorregadia. Já o pé não encontrava resistência.
Peito a peito, braço a braço, lutavam os dois homens; ora escorregava um e se firmava no adversário: ora cambaleava o outro, e restabeleciam o equilíbrio.
A luta continuava.
Abraçaram-se mais. Estreitavam-se com o frenesi de dois amantes moços que se encontram depois de longa ausência.
E lutaram!
De repente, deslocou-se o ar com a detonação da queda de um só corpo.
Foi uma queda para dois; rolavam formando um só vulto.
Lembrava aquilo uma besta informe nas agonias da morte: os dois formavam uma fera.
Era a mocidade fundida na cólera de um velho. A força dos vinte anos e a cólera dos cinqüenta eram o motor dois do bruto negro, que engatinhava, rolava e se torcia na lisura da pedra, um monstro marinho, fora d’água.
A claridade fosfórica do mar, a besta movia-se em todos os sentidos e tomava novas proporções; parecia fantasticamente ora crescer, ora diminuir.
A boca espumosa do velho esfregava-se pela cara do moço, segredando-lhe em tom terrível e quebrado pelo cansaço estas palavras:
— Pois morrerás! Miserável!...
E mordiam-se.
— Pois morrerás!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.