Por Eça de Queirós (1878)
Sorria para a tranqüilizar. Ela punha o chapéu, descia o véu com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.
No corredor encontraram a tia Joana com os braços abertos: beijou muito Luísa; aquela visita era um milagre! E que bonita que estava! Era a flor do bairro!
- Está bom, tia Joana, está bom - disse Sebastião, afastando-a brandamente.
Ora que não fosse metediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, também ela agora a queria um bocadinho! Assim é que ele devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!
Luísa corava, embaraçada.
E o Sr. Jorge? Que era feito dele? Ninguém o via. E a D. Felicidade?
- Está bom, basta, tia Joana! - fez Sebastião impaciente.
- Olha o sôfrego!... Ninguém lhe come a menina!... Cruzes!...
Luísa sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. Sebastião fê-la entrar logo embaixo no escritório: que escrevesse, ele os mandaria; escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a pena - mais pronto, mais dedicado desde que a sabia infeliz. Luísa fez o bilhete para Jorge; e como apesar das suas aflições, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou num P.S., no bilhete para ela: "o melhor é vires de preto, e não fazeres grande toalete. Nada de decotes nem de cores claras".
Quando entrou em casa, viu um galego saindo com a trouxazita de Joana. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:
- Torne eu a apanhá-la, que não me sai viva das mãos, sua bêbeda!
- Bufa! Bufa! - gritou de cima Juliana. - Mas vai-te indo para o olho da rua!
Luísa escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
- Se eu te apanho! - rosnava a Joana descendo.
- Rua! Rua, sua porca! - gania a Juliana.
Luísa então chamou a rapariga:
- Joana, não procure casa, venha por aqui além de amanhã - disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a Carta Adorada, com um júbilo estridente.
E daí a pouco desceu, veio dizer, muito secamente, que estava o jantar na mesa.
Luísa não respondeu. Esperou que ela subisse à cozinha, correu à sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto; - e ali jantou, a um canto da jardineira.
Às seis horas um trem parou à porta. Devia ser Sebastião! Foi ela mesma abrir, em bicos de pés. Era ele, animado, vermelho, com o chapéu na mão: trazia-lhe a chave da frisa número dezoito...
- E isto...
Era um ramo de camélias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
- Oh, Sebastião! - murmurou ela, com um reconhecimento comovido.
- E carruagem, tem?
- Não.
- Eu cá mando. As oito, hem?
E desceu, todo feliz de a servir. Ela seguiu-o com o olhar que se umedecia. Foi à janela do quarto vê-lo sair. - Que homem!" - pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia também um prazer doce na proteção dele, nos seus cuidados.
Nós de dedos bateram à porta do quarto:
- Então a senhora não quer jantar? - disse a voz impaciente de Juliana, de fora.
- Não.
- Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luísa ficou tranqüila, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço de esmeraldas.
- Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber? - disse logo, muito alegre, a excelentesenhora.
Um capricho! - O Jorge tinha jantado fora, ela sentira-se tão só!... Dera-lhe o apetite de ir ao teatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.
- Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive para não vir - disse,sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido. - Apertar-me depois de jantar! Felizmente não tinha comido quase nada!
Quis então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? Dezoito. Perdiam a vista da família real, era pena!... Pois estava mais longe daquela noitada de teatro!... - E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ajeitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupila luzidia.
Uma carruagem parou à porta.
- O trem! - disse, toda risonha.
Luísa calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? - perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? O lenço?
- Ai! O meu ramo! - exclamou Luísa.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida para teatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancela com uma pancada insolente:
- Não tem mesmo vergonha naquela cara! - rosnou.
O trem já rodava quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.